ENTREVISTA

E a galinha vai ao cinema...

Empreendedorismo: um dos pais da Galinha Pintadinha, o músico e seu sócio agora trabalham para que a personagem alce novos voos, cantando em outras línguas e até mesmo chegando às telonas

Crislaine Coscarelli
28/07/2013 às 05:00.
Atualizado em 25/04/2022 às 10:56

Um dia, um vídeo que havia sido literalmente esquecido no YouTube conquista 500 mil acessos e vira um sucesso estrondoso, sem a necessidade de nenhuma divulgação, tornando a personagem Galinha Pintadinha uma febre entre a criançada de todo o Brasil. Contando dessa forma, parece que Marcos Luporini, que é formado em música popular pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e seu sócio Juliano Prado não passam de dois sortudos. Mas a história não é bem essa. Até que aquele fatídico vídeo fosse postado na internet, muito trabalho já havia sido feito e muitos “nãos” ouvidos pelos dois. A primeira ideia era a criação de um programa infantil para a TV, mas a internet acabou atropelando os planos. Agora a personagem e seu marido, o Galo Carijó, eclodiram da internet e ao cantar novas versões de antigas músicas populares, conhecidas por várias gerações, se materializaram em 200 produtos licenciados como bonecos de pelúcia, escovas de dente e até piscinas de plástico. Também ultrapassaram a marca de 1 milhão de DVDs vendidos e protagonizaram um show itinerante que viaja por todo o País. Com tudo isso, estimativas de mercado calculam que a Bromélia Produções, empresa criada a partir do sucesso da Galinha Pintadinha, tenha faturado cerca de R$ 6 milhões no ano passado (a companhia não divulga seus resultados oficialmente). Em entrevista à Metrópole, Luporini conta quais são os planos para o futuro da Galinha Pintadinha, que passam pela tradução das músicas para outros idiomas — hoje já estão disponíveis na internet sete vídeos em espanhol que contam com cerca de um milhão de visualizações por dia — e pela transformação da personagem em atriz de cinema, caminho que está sendo feito com “muita calma”, de acordo com o músico.  Metrópole - A Galinha Pintadinha foi um projeto que começou despretencioso, por meio de um vídeo postado no YouTube e explodiu depois de você produzir 13 músicas para montar um DVD. A história é essa mesmo?Marcos Luporini - Queria apenas antes de tudo esclarecer que a Galinha Pintadinha é uma obra coletiva (como 99,9% das animações também o são). Há vários artistas envolvidos e a autoria acaba se diluindo entre todos. No caso, eu e o Juliano Prado somos os idealizadores.A história é quase isto. Na verdade, eu já havia produzido as 13 canções que compõem o primeiro DVD e, em 2005, procurei o Juliano (meu sócio no projeto) para viabilizarmos a produção das animações. A certa altura, tivemos algumas dificuldades e o projeto empacou. Foi a partir daí que saímos em busca de alternativas para finalizar o projeto, marcando várias reuniões. Para uma delas, na qual não poderíamos estar presentes, subimos o vídeo “Galinha Pintadinha” no Youtube, pois não tínhamos dinheiro para pagar o motoboy levar o DVD. Esquecemos o vídeo lá e o resto é a história que já foi contada.  Como músico, você diria que é gratificante fazer sucesso com novos arranjos para músicas populares conhecidas por várias gerações?Sim, é muito gratificante. É fazer parte de uma corrente do bem e ajudar estas músicas a se perpetuarem. Nosso cancioneiro merece e, para mim, é uma honra.  Como foi criar a base de um negócio que está em grande expansão?A Bromélia Produções foi criada modestamente apenas para podermos vender o primeiro lote de 1000 DVDs através de um e-commerce. Foi muito importante que já tivéssemos este conhecimento na época, pois ter a empresa montada com todos os certificados exigidos é um caminho aberto para que o negócio possa se expandir.  Na sua opinião, o que é preciso para ser um empreendedor de sucesso?Eu não nos considero empreendedores de sucesso. Acredito sim que devamos fazer as coisas com paixão. Eu gosto do que eu faço e ponho paixão em tudo e é neste sentido que me considero bem sucedido. Trata-se de algo subjetivo. Creio que as outras pessoas que fazem parte do projeto tenham esta mesma paixão e é a isto que o público responde, seja ele de qualquer idade.  A Bromélia tem como meta fazer um filme para o cinema com a personagem? Por favor, dê mais detalhes sobre o projeto.Sim. Este projeto existe, mas fazer cinema é muito mais do que simplesmente produzir um filme. Hoje em dia, existe uma enxurrada de filmes que ficam prontos mas não conseguem ser exibidos. Por isso, estamos traçando este caminho com muita calma, buscando as parcerias certas e sem pressa, como sempre.Já que a base do sucesso de vocês é a internet, você acredita que há mercado para a Galinha Pintadinha também no exterior? Já existem vídeos produzidos por vocês em espanhol, eles já são bastante acessados?Posso afirmar com orgulho que a Gallina Pintadita (versão em espanhol) já é um sucesso. Os vídeos foram traduzidos para o espanhol em 2011e hoje já atingem a marca de 1 milhão de visualizações por dia no YouTube (são sete vídeos disponíveis). Já estamos partindo para a etapa posterior que é a distribuição física dos DVDs.  Antes da Galinha Pintadinha, você já havia trabalhado com o público infantil?Não trabalhava diretamente, mas como produtor musical em estúdio e, regularmente, apareciam trabalhos infantis. Eu sempre gostei de fazer este tipo de trabalho, mas acho que meu amor à música infantil vem de meu ouvido de criança, da época em que cantavam estas músicas para mim. Adorava e continuo adorando.  Você diria que o maior desafio deste mercado é combater a pirataria?É um grande desafio. Só não creio que seja um desafio nosso, mas da nação como um todo. Digo isto porque acredito que o Brasil é uma potência mundial em termos de cultura e criatividade. Existe um mercado imenso inibido por uma certa complacência do governo com a pirataria e, pensando de forma coletiva e a médio prazo, todos acabam perdendo. Seria interessante para a economia nacional que se levasse esta questão mais a sério.  Há uma briga na Justiça para que a personagem se torne de domínio público. Como está esse processo?Na verdade, não há briga nenhuma. Esta história surgiu por conta de um produtor teatral já conhecido no meio por piratear várias propriedades (o “Cocoricó”, por exemplo). Ele nos pirateia e foi processado por nós. A maneira que encontrou para “empurrar com a barriga” e ganhar tempo para continuar infringindo a lei foi apelar alegando este absurdo.Temos todos os registros necessários para provar nossa propriedade autoral e tudo já foi entregue à Justiça. Seguimos pacientemente aguardando que a 3ªVara Cível da Comarca de Campinas se pronuncie. 

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