Baú de Histórias

Em memória da mestra

Quem estudou no Campus I não se esquece da mestra exigente, sisuda às vezes, que passava horas falando da obra de pensadores como Engels, Kant, Durkheim... Gênios que ajudaram a moldar a sociedade dos nossos dias, e eram leitura obrigatória para jovens estudantes de jornalismo, que arrancavam os cabelos nas provas de Teoria da Comunicação.

Rogério Verzignasse
08/06/2015 às 15:38.
Atualizado em 23/04/2022 às 11:16
Zelinda Fávero Gervásio ( Carlos Sousa Ramos / AAN)

Zelinda Fávero Gervásio ( Carlos Sousa Ramos / AAN)

Foto: Carlos Sousa Ramos / AAN Belinha, Gabriel e Sabá com lembranças da irmã Parece que foi ontem. Zelinda se foi há dez anos. O tempo passou, mas a alma da professora ainda mora na casa antiga, cheia de quartos, que ela dividia com suas duas irmãs solteiras, Sabá e Belinha. A biblioteca da mestra continua igualzinha: a mesa pesada, os discos arrumadinhos, os objetos artesanais. Uma peça se destaca. É uma pequena balança de aço, que há mais de 50 anos era usada no armazém da família, em São José do Rio Pardo. As fotos da professora estão por toda casa. Há quadros pendurados nas paredes e decorando prateleiras. O carro dela, um Kadett 95 azul, continua na garagem. Os parentes falam que a morte acabou com quase uma década de agonia. A mulher sofria de câncer. Uma das últimas fotografias a mostra abatida, cabisbaixa. Já não era nem sombra da mulher elegante, de olhar altivo, conhecida dos alunos que passaram pela PUC-Campinas. Zelinda Fávero Gervásio era funcionária desde 1973. Só se afastou das salas de aula em 1998. Chegou a integrar a direção do Instituto de Artes e Comunicações (IAC). Testemunhou as transformações econômicas, sociais e políticas do Brasil por mais de três décadas. Mesmo afastada, se tratando em casa, ela produzia material veiculado pela TV PUC. Trabalhou sem parar, enquanto resistiu. Ela morreu no dia 22 de maio de 2005. No dia 2 de junho, faria 64 anos. Quem estudou no Campus I não se esquece da mestra exigente, sisuda às vezes, que passava horas falando da obra de pensadores como Engels, Kant, Durkheim... Gênios que ajudaram a moldar a sociedade dos nossos dias, e eram leitura obrigatória para jovens estudantes de jornalismo, que arrancavam os cabelos nas provas de Teoria da Comunicação. Zelinda era filha de Gabriel Gervásio, imigrante italiano, que se estabeleceu e se casou com Anna, o casal teve dez filhos. Mas o pai morreu cedo. O armazém entrou em crise e Modesto, o filho mais velho, convenceu todo mundo a se mudar para Campinas. É que ele já estava bem por aqui. Era químico na Rhodia e fez questão de bancar a mudança do clã inteiro. No começo, a turma se amontava em uma casa de três quartos na Rua Tiradentes. Mas todo mundo foi se estabelecendo, até que a família conseguiu comprar a casa maior, no Chapadão. Zelinda e Belinha foram matriculadas no Colégio Ave Maria. Fizeram Ciências Sociais e, lá no comecinho da década de 1960, foram convidadas para lecionar na Escola São Paulo, fundada no coração da antiga Fazenda Holambra, embrião da jovem cidade formada por lavradores holandeses. As irmãs educaram as crianças do lugar por uma década. Quando as duas voltaram para Campinas, cada uma tomou um rumo. Zelinda entrou na PUC, Belinha virou professora do Estado e lecionou OSPB. Mas, um detalhe é muito importante. Pioneiras na escolinha, as duas nunca foram esquecidas. Foto: Reprodução Zelinda durante uma viagem e em festa na escola São Paulo onde lecionou Quando Zelinda morreu, foi homenageada em evento especial, emocionante, organizado pela Câmara Municipal. Belinha esteve lá. Recebeu flores da mãos do vereador Pedro Galli, que tinha sido seu aluno. O auditório estava cheio de outros antigos alunos. Homens e mulheres adultos, que eram as criancinhas que aparecem rodeando Zelinda no álbum antigo. Causos inesquecíveis são contados pelo irmão Gabriel (que ganhou o mesmo nome do pai, dono do armazém). O cidadão tem 83 anos e trabalha como corretor de seguros em um escritório improvisado na própria casa, no Taquaral, depois de passar mais de 30 anos como empregado em algumas das maiores seguradoras brasileiras. Emocionado, ele mostra a foto da filharada jovem, rodeando a mamãe Anna. Dos dez, cinco já se foram: Modesto, Paschoal, Jayme, Maria e Zelinda. Estão vivos ele, Renato, Belinha, Sabá e a outra Anna. “A família sempre foi muito unida. E é uma alegria enorme encontrar ex-alunos e conhecidos da Zelinda, que a admiram demais. Acho que aqui, em Campinas, a gente construiu a vida, com os valores que os pais ensinaram”, diz. 

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