Espetáculo de palhaçaria com Rosiléia, personagem vivida pela atriz Renata Rukmini, circula gratuitamente por diferentes regiões de Campinas em uma jornada de humor, afeto, autoestima e redescoberta
A palhaça Roseléia conduz o público por uma apresentação que mistura delicadeza e imaginação a partir dos gestos simples do cotidiano (Andrea Pasquini)
Entre baldes, espanadores e dois manequins silenciosos, a palhaça Roseléia encontra matériaprima para construir um universo de humor, fantasia e emoção. Em “A Faxineira da Boutique”, número de palhaçaria protagonizado pela atriz Renata Rukmini (Cia. Florescer), a personagem realiza a limpeza de uma loja após o expediente e, em meio à solidão, passa a se relacionar com os objetos ao seu redor. O resultado é uma pequena joia da palhaçaria contemporânea: um trabalho divertido, delicado e profundamente humano.
A montagem integra um projeto contemplado pelo edital FICC 2024, do Fundo de Investimentos Culturais de Campinas, e está em circulação gratuita por diferentes espaços culturais da cidade até o fim de maio, acompanhada de rodas de conversa e oficinas de iniciação à palhaçaria. Após passar primeiro pelo CEU Florence, no Jardim Florence, o espetáculo chega hoje (16) ao Centro Cultural Casarão, em Barão Geraldo, às 19h. A temporada se encerra em 28 de maio, também às 19h, no Espaço Cultural Maria Monteiro, no Conjunto Habitacional Padre Anchieta, em sessão especial com intérprete de Libras, ampliando o acesso do público à experiência artística.
Por trás do nariz vermelho está a atriz, palhaça e professora Renata Rukmini, que há mais de duas décadas pesquisa a linguagem do clown e sua potência transformadora. Para ela, Roseléia é mais do que uma personagem. “A palhaça é uma persona minha, construída a partir da minha própria história. Ela representa um modo de eu me aceitar mais, de ser menos perfeccionista, mais espontânea e sincera”, afirma Renata.
A origem da faxineira remonta a uma experiência marcante da artista, quando trabalhou com limpeza em Londres e enfrentou, no mesmo período, uma decepção amorosa. Ao retornar ao Brasil, Renata transformou a vivência em arte. “Foi uma maneira de ressignificar emocionalmente algumas dores. Acredito muito na arte como transformação, não só para os espectadores, mas também para os próprios artistas”, diz.
O primeiro esboço surgiu em 2014, no número “Cinderela às Avessas”. Mais tarde, durante um ateliê com a renomada palhaça suíça Gardi Hutter, o material ganhou novos contornos dramatúrgicos. Hoje, em “A Faxineira da Boutique”, Roseléia imagina um romance com o manequim Fábio, troca de roupa com Kelly e transforma tarefas banais em situações absurdas e cômicas.
Por trás das gargalhadas, o espetáculo aborda temas universais. “A obra traz à tona os relacionamentos ilusórios, em que nos apaixonamos por uma imagem que criamos do outro, como se fossem manequins de loja. Muitas vezes demoramos para perceber a realidade”, explica Renata.
O número condensa reflexões sobre amor, identidade e pertencimento. Roseléia, com sua ingenuidade e vulnerabilidade, revela o ridículo e a beleza da condição humana. “A palhaçaria ajuda a levar a vida menos a sério. Ensina a rir dos próprios erros, a cair e levantar com humor. Isso promove autoaceitação e amplia nossa sensibilidade”, afirma a artista.
Essa identificação do público com a personagem é uma das forças do trabalho. Em uma apresentação recente, profissionais de limpeza presentes na plateia se reconheceram em Roseléia. Uma delas foi convidada ao palco, vestiu o figurino e protagonizou um momento de celebração. “Percebi também como colocar a faxineira no centro da cena pode colaborar para a valorização e autoestima dessas trabalhadoras”, conta Renata.
CONVERSA APÓS A CENA
Cada sessão é seguida de uma roda de conversa, na qual espectadores compartilham interpretações e sentimentos despertados pela obra. Segundo Renata, esses encontros aprofundam o sentido do espetáculo. “Cada pessoa enxerga a obra a partir do próprio repertório. Muitas vezes, o público me ajuda a compreender aspectos que eu mesma ainda não tinha percebido”, observa.
Foi assim que surgiram leituras sobre competitividade feminina, desigualdade de classe e papéis de gênero, temas que, embora não estivessem explicitamente planejados, passaram a integrar o debate provocado pela encenação.
Além das apresentações, o projeto oferece oficinas gratuitas de “Iniciação à Palhaçaria”, abertas a pessoas com ou sem experiência artística. A metodologia “Florescer do Clown”, desenvolvida por Renata, utiliza técnicas da palhaçaria para estimular autoconhecimento, espontaneidade e expressão pessoal. “As oficinas podem ser transformadoras na vida de qualquer pessoa. A palhaçaria não é apenas uma linguagem artística; é uma ferramenta para desenvolver autenticidade, alegria e confiança”, afirma.
PROGRAME-SE
A Faxineira da Boutique
Quando e Onde: hoje, 16 de maio, às 19h, no Centro Cultural Casarão, em Barão Geraldo (R. Aracy de Almeida Câmara, 291 - Barão Geraldo) e 28 de maio, às 19h, no Espaço Cultural Maria Monteiro R. Dom Gilberto Pereira Lopes, 412 - Conj. Hab. Padre Anchieta, Campinas
Oficinas gratuitas de Iniciação à Palhaçaria
Quando 21 de maio, às 19h (online, com Libras) e 30 de maio, às 14h30 (presencial)
Inscrições e informações: Instagram @ciaflorescer
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