O desrespeito ganha contornos dramáticos nos relacionamentos; trânsito reflete essa crise

Série Debates fala sobre respeito (AAN)
Respeito com o próximo e com a própria vida. Com os animais, com a natureza, com as coisas. Ser educado deixa a vida melhor. Acredite nisso. Parece "demodê", mas não o é.
Estudiosos do comportamento humano e das civilizações ensinam que uma sociedade só se constrói e dá um salto para relações minimamente humanas quando instaura o respeito de uns para com os outros.
Respeitar demais, porém, não significa que você deve aceitar tudo, engolir todos os sapos. Pelo contrário, é sadio contestar, debater e buscar alternativas para encontrar as soluções dos problemas.
Um exemplo de desrespeito é o que acontece no trânsito. O pior é quando a ausência de tolerância no trânsito resulta em mortes, discussões acaloradas, brigas. Violência pura.
Nos dias de hoje a falta de respeito não se limita ao trânsito ou às filas de banco. É cada vez mais comum o descontrole comportamental nas famílias, no emprego, na escola, no esporte, na cultura, na política.
Ouve-se muito que educação vem do berço, isto é, do seio familiar. Parece antiquado, mas muita gente ainda tem saudades daquela figura do pai que quando começava a falar, todos ficavam em silêncio. Suas atitudes davam orgulho aos filhos. A figura mãe, ícone do amor e da confiança no lar, era sinônimo de um respeito sagrado. Coisa de gente velha em uma sociedade moderna?
Depende do ponto de vista.
Quanto maior o grau de respeito, maior a justiça. Se falta educação, rompem-se os limites, vigora o desrespeito e a imposição sobre os demais. Respeito supõe "reconhecer o outro como outro" e seu valor intrínseco, seja para pessoas ou qualquer outro ser.
Leonardo Boff, teólogo e escritor, em um de seus inúmeros artigos (A falta que o respeito faz), aponta o desrespeito como um problema grave. "Dentre as muitas crises atuais, a falta generalizada de respeito é seguramente uma das mais graves. O desrespeito campeia em todas as instâncias da vida individual, familiar, social e internacional. Por esta razão, o pensador búlgaro-francês Tzvetan Todorov, em seu recente livro "O medo dos bárbaros" (Vozes, 2010), adverte que, se não superarmos o medo e o ressentimento e não assumirmos a responsabilidade coletiva e o respeito universal, não teremos como proteger nosso frágil planeta e a vida na Terra já ameaçada", escreve o teólogo.
O tema do respeito nos remete a Albert Schweitzer (1875-1965), prêmio Nobel da Paz de 1952. Conta Boff que Schweitzer é um dos mais eminentes teólogos de seu tempo. Seu livro "A história da pesquisa sobre a vida de Jesus" é um clássico que remete às reflexões sobre a importância do respeito mútuo.
"Mais tarde, Schweitzer abandonou a cátedra de teologia e se inscreveu na faculdade de medicina. Formado, foi a Lambarene no Gabão, na África, para fundar um hospital e servir a hansenianos. E aí trabalhou, dentro das maiores limitações, por todo o resto de sua vida", descreve Leonardo Boff em seu artigo.
Nas palavras de Schweitzer, o bem "consiste em respeitar, conservar e elevar a vida até o seu máximo valor; o mal, em desrespeitar, destruir e impedir a vida de se desenvolver". E conclui: "Quando o ser humano aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante; a grande tragédia da vida é o que morre dentro do homem enquanto ele vive".
NECESSIDADES
Tanta falta de educação, de respeito, tem alguma explicação, segundo analisa a psicóloga Lucelena Nogueira. Ela avalia, sem generalizar, que as pessoas se preocupam cada vez mais apenas com suas necessidades. Esse mundo competitivo deixa muitas pessoas só olhando para si próprias. "Não interessa o que dizem, interessa o que você pensa", exemplifica a psicóloga.
Lucelena explica que são cada vez mais flagrantes atitudes de pessoas preocupadas com o "ter", não com o "ser". Pessoas focadas com as coisas da vida, e não com as relações. Embora o consumo seja necessário, passa a ser exagero pensar 24 horas em ter um carro zero, um iPhone última geração etc. Assim, na euforia do "ter", um acaba atropelando o outro.
No dia a dia, Lucelena se vê em situações incômodas. Já viu brigas em filas de bancos, discussões no trânsito. Já advertiu pessoas que jogaram lixo nas ruas. "O que se observa é que estamos perdendo a capacidade de se colocar no lugar dos outros", afirma.
Indagada sobre o que mais a deixa cética no trato humano, Lucelena é enfática: "A falta de ensinar o respeito".
Trabalhando diariamente com o comportamento humano, ela relata casos quando pais não se preocupam em impor limites aos filhos. "Existe uma geração de pais que não se importa em ensinar a criança a respeitar", disse.
Mãe de uma criança e convivendo com três enteados, Lucelena conta que "se policia" para dar bons exemplos. Nas conversas com pessoas mais jovens, já ouviu frases do tipo: 'Dar bom dia é coisa de velho'. Lucelena aponta, inclusive, manifestações "culturais" que pregam o desrespeito. "Algumas músicas ensinam a provocar, insultar os outros", disse.
CRIAÇÃO
A também psicóloga Priscila Cordeiro Bomback ressalta a importância do seio familiar na formação do caráter. "A criação conta muito. Considero-me educada, graças a Deus", disse.
Para Priscila, o trânsito em Piracicaba é sinônimo de falta de educação. "É muito difícil alguém dar 'a vez', a passagem em nosso trânsito. Muito diferente do de São Paulo. Da minha parte, sou uma pessoa tranquila", afirma.