Das famílias que carregam séculos de história aos novos artistas formados em escolas e grupos de pesquisa, a arte circense vive um momento de expansão na cidade, unindo herança, formação e inovação

Ao mesclar técnica, poesia e reflexão, o espetáculo 'Mulheres que Voam' da Fly Maria, evidencia como a nova cena circense tem incorporado debates contemporâneos sobre o universo feminino (Felipe Valerio Reis da Silva)
Campinas tem uma longa relação com o universo circense. Ao longo das últimas décadas, a cidade se consolidou como um dos polos mais importantes da arte do picadeiro no interior paulista, reunindo famílias tradicionais, escolas especializadas, grupos de pesquisa, companhias independentes e uma nova geração de artistas que encontrou no circo não apenas uma profissão, mas também um espaço de expressão artística e transformação social.
Em uma cidade onde o circo dialoga com universidades, centros culturais e projetos comunitários, a tradição e a renovação caminham lado a lado. Se por um lado famílias circenses mantêm viva uma herança transmitida entre gerações, por outro, escolas e companhias têm atraído pessoas que chegam ao circo por caminhos diversos, ampliando a cena e renovando seus significados.
Entre os nomes que ajudam a contar essa história está Claudia Orteney, diretora da Cia do Circo, em Barão Geraldo (@ciadocirco). Integrante de uma família que acumula cerca de 280 anos de trajetória comprovada na arte circense, ela vê o circo como uma linguagem única, impossível de ser dividida em categorias. “O circo é um só, não acredito nesta separação entre circo tradicional e contemporâneo. É uma arte milenar e tudo que vem depois do circo é circo. Ele sempre foi contemporâneo, sempre esteve à frente do seu tempo”, afirma.
Segundo Claudia, a história da família está registrada em documentos desde o início do século XIX. “Meus filhos são a décima geração da minha família. Nosso sobrenome está em livros desde 1810. Nós fomos a primeira família a se instalar em Campinas e abrir uma escola”, conta.
A relação da família com Campinas começou em 1971, quando uma geração anterior chegou à cidade com o Circo Tihany, vindo da Europa. Trinta anos depois, em 2001, a Cia do Circo nasceu no quintal da casa da família e se transformou em um importante centro de formação e referência para artistas da região. Para Claudia, a influência da escola ultrapassa seus próprios espetáculos. Ela destaca que muitos profissionais e proprietários de escolas atuantes hoje em Campinas passaram por sua formação ou pela metodologia desenvolvida por Mestre Alex Brede e sua mãe, Marion Brede.
A relevância da família para a formação circense em Campinas também passa pela trajetória de Alex Brede, considerado um dos maiores mestres trapezistas do mundo. Integrante da tradicional linhagem circense que ajudou a consolidar a Cia do Circo na cidade, Brede construiu carreira internacional e trabalhou ao lado dos lendários Flying Gaonas, grupo consagrado como vencedor do prestigiado Festival Internacional de Circo de Monte Carlo, considerado a principal premiação mundial da arte circense.
A diretora também reforça que o circo possui raízes muito mais antigas do que normalmente se imagina. “É uma arte milenar. Temos relatos de atividades relacionadas ao circo com mais de cinco mil anos, incluindo pinturas em vasos chineses mostrando pessoas cuspindo fogo e lançando facas e espadas”, lembra.
“A chegada de novos artistas por meio de escolas e oficinas é um movimento natural e positivo. O que realmente sustenta essa cena é a qualidade da base técnica, que garante a segurança e o domínio necessários para o exercício da arte”, diz.
Outro exemplo de espaço artístico e formativo em Campinas é a Fly Maria, escola e companhia especializada em técnicas aéreas inaugurada em 2021 no Centro da cidade (@flymaria). À frente do projeto está a artista, diretora e professora Paula Gadioli Alberto, que representa uma geração de profissionais que encontrou no circo um caminho de arte, profissão e paixão.
Para Paula, o crescimento do número de praticantes e artistas está diretamente ligado à expansão das oportunidades de formação. “Na minha infância não existia a possibilidade de fazer aulas de circo ou de aéreos. Hoje as pessoas procuram atividades diferentes das academias tradicionais e encontram nas escolas de circo ambientes mais acolhedores, especialmente para mulheres e adolescentes”, explica.
Segundo ela, muitos artistas iniciam a trajetória como alunos em busca de uma atividade física alternativa e acabam descobrindo uma vocação profissional. “O circo oferece outras possibilidades de relação com o corpo e com a arte. Muitas pessoas começam por hobby e acabam transformando isso em profissão, como aconteceu comigo”, afirma.
Paula também destaca o fortalecimento da pesquisa acadêmica na área. “Hoje existem grupos muito fortes ligados às universidades, desenvolvendo estudos sérios sobre pedagogia e metodologias de ensino do circo. Isso contribui diretamente para a formação dos artistas e para o crescimento da área”, avalia.
Além da formação técnica, a nova geração de artistas tem ampliado o diálogo do circo com temas sociais contemporâneos. É o caso do espetáculo “Mulheres que Voam”, criado por Paula e atualmente em circulação na cidade. A montagem surgiu como resposta ao aumento dos casos de feminicídio e violência contra a mulher e combina técnicas aéreas com relatos e reflexões sobre a condição feminina.
“Este espetáculo tem transformado a vida das pessoas que estão no palco e na plateia. A arte consegue chamar atenção para temas sensíveis, fazer você se colocar no lugar daquelas mulheres e se sensibilizar para assuntos difíceis”, afirma a diretora.
O projeto está em fase de captação de recursos e prevê novas apresentações em junho, além de oficinas e ações educativas que buscam ampliar o alcance da discussão para diferentes públicos.
Entre escolas históricas, companhias independentes, pesquisas acadêmicas e novos espetáculos, Campinas construiu uma cena circense diversa e em constante movimento. Embora as trajetórias sejam diferentes, há um ponto de encontro entre artistas de origens distintas: a compreensão de que o circo continua sendo uma arte baseada na disciplina, na técnica, na superação de limites e na capacidade de encantar.
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