No Dia Internacional da Dança, celebrado hoje, pesquisas em diferentes países indicam que a prática favorece a saúde mental, reduz índices de depressão, de ansiedade e eleva o humor em todas as idades

Forrozeiros se reúnem toda semana em Barão Geraldo e recebem aulas gratuitas para aprender técnica, inclusão e respeito (Divulgação)
Hoje (29), o mundo celebra o Dia Internacional da Dança com uma certeza: ela é uma importante ferramenta de melhoria da saúde mental, independente do estilo. Em Campinas, inúmeras atividades comprovam isso e passam por projetos sociais, por hospitais, por bares e chegam a grupos organizados e escolas. Independentemente da idade, do local, do estilo ou da habilidade, todos concordam - e as pesquisas comprovam - que a dança transforma as pessoas de diversas maneiras.
É o que afirma a artista da dança e arteterapeuta Valéria Franco (@dialogocorporeo), que faz um trabalho na enfermaria de psiquiatria do Hospital das Clínicas da Unicamp, acompanhando de perto como a dança pode atuar de forma profunda na saúde mental, inclusive com pacientes que não podem sair da cama. “Realizo atendimentos individuais com pacientes acamados e, também, com ateliês de dança em grupo. A dança somática que desenvolvo propõe uma experiência de movimento a partir da percepção do próprio corpo”, explica.
A VOZ DO MOVIMENTO
Ao dançar, muitos pacientes acessam memórias corporais que, pouco a pouco, podem ser ressignificadas, conta Valéria. Ela diz perceber “como os elementos lúdicos da dança despertam alegria, promovem bem-estar e contribuem para o equilíbrio e a mobilidade, mesmo em situações de maior fragilidade. Reações que podem parecer pequenas em outros contextos, aqui fazem total diferença, pequenos sorrisos, respostas com olhares ou respirações profundas, inclusive, o movimento pode trazer informações que, às vezes, as palavras não são suficientes”.
Para esse trabalho realizado em ambiente hospitalar, a arteterapeuta traz como suporte a experiência desenvolvida ao longo de sua carreira e registrada na publicação do método “Diálogo Corpóreo – pura potência do corpo sujeito”, lançado em 2024. O livro é resultado de mais de 40 anos de sua dedicação à dança, entre práticas de improvisação, dança contemporânea somática e criação de espetáculos para diferentes públicos. Nele, Valéria propõe que, “cada pessoa possa encontre um diálogo com si mesmo criando seu próprio repertório de movimentos e, a partir desse diálogo interno, se relacionar com o outro, ampliando sua percepção e relação com o mundo”.
ACESSO PERIFÉRICO
O primeiro estudo global sobre o sedentarismo entre adolescentes, realizado em 2019 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 146 países, revelou que quatro em cada cinco adolescentes são sedentários. E que 81% dos adolescentes entre 11 e 17 anos de idade não cumpriam as recomendações de pelo menos uma hora de atividade física por dia, média global seguida também pelos brasileiros, com consequências físicas e mentais conhecidas. Esse estudo é utilizado ainda hoje como um dado motivador do trabalho conduzido pelo Instituto Arnea (@arneainstitute).
Com 17 anos de atuação completados em fevereiro, o Ponto de Cultura Instituto Arnea é conduzido por Ney Hamilton Oliveira com o propósito de “transformar vidas através da arte e da dança em Campinas”. Para isso, oferece acesso gratuito a aulas de dança para crianças e adolescentes moradores da região norte da cidade, onde os índices de vulnerabilidade são altos. Mas os números impressionam: mais de 1800 crianças impactadas no período, 230 alunos atendidos atualmente (50% deles pretos ou pardos) e mais de 14 mil espectadores nos espetáculos do grupo.
“Por trás dos números estão os sonhos despertados, os talentos revelados, a autoestima reconstruída e futuros sendo redesenhados todos os dias”, explica Ney, que foca na inclusão social para que a dança em sua região não se torne mais uma atividade restrita e eletiva. Desde 2023, o projeto abraçou também a criação de uma Cia de Ballet profissional. Todo trabalho é mantido por meio de editais, emendas impositivas e outros recursos aprovados em projetos. Seus integrantes trabalham para que, em julho, seja lançado mais projeto inédito, em parceria com escolas da região.
ALEGRIA NO SALÃO
A dança de salão transforma as pessoas de diversas maneiras. Um dos primeiros pontos, e talvez o mais impactante, é a autoestima. Ao aprender novos movimentos, conhecer outras pessoas e ampliar a consciência corporal, algo quase mágico acontece, desenvolvendo três elementos: a concentração (conectar à música), a coordenação (controle do corpo com harmonia) e a memória (gravar sequências e movimentos). A junção dessas três habilidades se traduz, literalmente, na dança. Essa é a experiência diária do professor de dança Marcelo Lima, para quem “a dança de salão não ensina apenas movimentos, ela transforma vidas”.
Ele compara a atividade a uma forma de meditação ativa, “porque a pessoa precisa estar completamente presente - atenta à música, ao parceiro e ao seu próprio corpo. Esse estado gera uma transformação profunda”, explica. A melhoria de aspectos emocionais é outro benefício, “pois a dança exige presença e te ancora no presente”, diz ao alertar que “pessoas muito focadas no futuro tendem a desenvolver ansiedade, enquanto aquelas presas ao passado podem enfrentar quadros de depressão”. Marcelo trabalha com dança em sua escola, a Fatorial, onde oferece bolsas de estudo e todos os domingos – há 23 anos - dá aula de forró, gratuitamente, na Brasuca Multicultural, em Barão Geraldo. (@brasucamulticultural)
FORRÓ SEM ASSÉDIO
Professora de forró há 24 anos, Cris Carvalho já formou várias gerações de forrozeiros e tem a preocupação de ressaltar a importância do respeito na dança. Em suas aulas, além da técnica, o alerta é para que os integrantes se preocupem em deixar o par confortável, e a atividade seja prazerosa para ambos. Focada no respeito e inclusão, alerta os alunos: “aqui não existe assédio ou discriminação de nenhum tipo, levo esse assunto muito a sério”.
Nesta sexta-feira (dia 1º), em seu Instagram (@forroasasaovento), Cris pretende fazer uma postagem chamada “Forró sem preconceito”, mostrando os diferentes tipos de pares que podem ser formados para uma aula, sem nenhuma exclusão. E afirma: “a dança é o exercício mais completo que existe, pois ela não só te faz exercitar o corpo, mas também alivia a alma e a mente, pois permite desligar dos problemas por um tempo e ter momentos felizes”, comenta.
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