A comunidade LGBTQIAPN+, que historicamente foi silenciada ou invisibilizada, reúne artistas em projeto que pretende mostrar suas experiências em exposição de fotos, oficinas e diálogos a partir de sexta-feira, em vários espaços culturais de Campinas
Artistas expõem suas fotos subvertendo a rigidez histórica da imagem de corpos plurais e as usam para retratar identidades em constante reconstrução e movimento (Edwin Salas / Vida / Pâmela Leite / Ana Pinto / Bianca Paiva)
Histórias reais que já experimentaram muito enfrentamento e se reinventaram na rotina diária, vem de pessoas que conseguiram também se reconstruir com afeto e arte. É desse encontro de trajetórias que nasceu o projeto “Identidades Dissidentes”, que pretende criar espaços onde essas pessoas possam se ver, se reconhecer e, principalmente, se expressar a partir do próprio olhar. A exposição que será inaugurada nesta sexta, dia 8, no Espaço Marco do Valle, onde permanece aberta à visitação gratuita até o início de junho e reúne 32 fotografias de cinco artistas. A mostra integra uma programação que se desdobra em outras atividades, todas gratuitas.
No dia 23 de maio, o Coletivo Mangueira, no Jardim Santa Genebra, também se abre para receber uma programação de diálogos, realizada em parceria com o IBRAT Campinas. A atividade começa com a exibição de quatro curtas-metragens que atravessam temas como transmasculinidades, saúde mental, memória e expectativa de vida de pessoas trans no Brasil. Após as exibições, o público participa de um batepapo com Gabriel Jóia, Kalú Kariú e Diran Serafin, mediado por Mlk de Mel. A proposta é criar um espaço de troca direta, onde as experiências compartilhadas nas telas se expandem para a conversa coletiva, explica a produtora Vanessa Ochi-Café.
Uma oficina de fotografia que está em curso na OMG Cultural (que reúne as comunidades do Oziel, Monte Cristo e Gleba B) recebe participantes para um processo de formação que, no final, transformará o resultado do que foi aprendido em obras de arte. No final, a oficina se reverte em exposição aberta à visitação pública no dia 24 maio, ressaltando o protagonismo e a produção autoral construída ao longo do percurso, que teve início em abril.
ESCUTA E REPARAÇÃO
“A mensagem que a gente quer deixar é sobre existência e pertencimento. Sobre o direito de ocupar espaços, de contar a própria história e de transformar, pouco a pouco, a forma como a gente enxerga o outro e a nós mesmos”, relata Vanessa OchiCafé. Para ela, “a fotografia se mostra como um gesto de autonomia, e não sobre ser visto, mas sobre se mostrar como se é, com complexidade, com verdade”.
Vanessa comenta que o projeto “Identidades Dissidentes” nasceu do desejo de escuta e de reparação. “O nome carrega a ideia de todas aquelas pessoas que, de alguma forma, não cabem nas normas, e que, justamente por isso, foram historicamente silenciadas ou invisibilizadas. Estamos falando de pessoas trans, nãobinárias, agênero e, também, de pessoas com deficiência dentro da comunidade LGBTQIAPN+, que atravessam múltiplas camadas de exclusão, mas também de potência”, afirma.
Pensado como um percurso, o projeto propõe uma mudança de olhar. Sai da lógica normativa e abre espaço para outras formas de existir, sentir e se reconhecer — atravessando imagem, território e escuta, explicam os organizadores. Todas as atividades são gratuitas e contam com recursos de acessibilidade, além de mediação cultural nas aberturas das exposições, ampliando as condições de acesso e a experiência do público.
OBRAS FOTOGRÁFICAS
A exposição no Espaço Marco do Valle reúne 32 fotografias das artistas Vida, Ana Pinto, Bianca Paiva, Pamela Leite e Edwin Salas. Elas explicam que “as imagens não aparecem como registros isolados, mas como partes de um caminho que acompanha processos reais de construção das identidades dissidentes”. Com curadoria de Danielle Braido, a fotografia é tratada como campo de disputa: um lugar onde padrões são questionados, distorções são ressignificadas e novas possibilidades de leitura emergem, sempre tendo o corpo como território.
A artista Vida apresenta a série “Raio x, y, z”, onde mostra imagens construídas com longa exposição e rastros de luz, dando a impressão de uma figura que se multiplica, desfaz e reconfigura. “O gesto borrado não é erro, mas estratégia: ele tensiona a expectativa de nitidez e afirma a fluidez como linguagem”, diz a artista, para quem a série dialoga com a ideia de que “o eu não é essência fixa, mas processo”.
Com a predominância do azul – que remete ao mar e às travessias que antecedem sua existência – a artista Ana Pinto, após anos fotografando outras pessoas, retorna ao autorretrato como método de pesquisa, colocando o próprio corpo diante da câmera para observar como ele se constrói e se transforma na imagem, em um processo que envolve distorções óticas e movimento. Sua série é “Ultramar: Corpo Atlântico”, que investiga a relação entre imagem, memória e travessia.
A série “Tramas de Resiliência” marca o início da fotografia como ferramenta para ajudar a artista Bianca Paiva a se conectar consigo mesma e entender sua não binariedade. Nesta mostra ela “investiga as violências que atravessam o corpo dissidente, gordo e negro, mas também busca os lugares de paz, conforto e amizade que esses outros corpos oferecem”. Suas fotos captam fragmentos, focando em detalhes e inseguranças compartilhadas, com a cor vermelha usada como identidade pessoal, símbolo de guerra e potência.
Pâmela Leite é a artista da série “Queimam de Arquivo”, onde conta - por meio de fotos que mostram a queima de materiais – sobre seu primeiro ano de transição, quando abandonou o passado. “Meu corpo reagiu de uma forma tão forte, que o fogo queimou as lembranças, essa foi minha forma de deixar o que precisava acontecer, respeitar o passado e abrir caminho para novas coisas. Lembrar importa, mas também é preciso esquecer”, afirma.
A obra autoral de Edwin Salas mostra uma sequência de fotos artísticas que compõem a série “Cuidado”, revelando seu momento de descoberta e fragilidade. “As imagens foram construídas com direção cuidadosa e simbólica para revelar as culturas afro-brasileiras e, mais do uma exposição, é lembrete de que o cuidado também é ato político, e que a arte tem o poder de sustentar aquilo que muitas vezes as palavras sozinhas não conseguem.”
PROGRAME-SE
Projeto: ‘Identidades Dissidentes’
Exposição fotográfica
Quando: abertura m]na sexta, dia 8, às 18h. Visitação até 8 de junho
Onde : Espaço Marco do Valle - R. Dr. Quirino, 1865 – Centro.
Entrada Gratuita
Diálogos – com exibição de curtas e debate
Quando: dia 23 de maio, a partir das 17h
Onde : Coletivo Mangueira - R. Marquês de Abrantes, 1398 - Jardim Santa Genebra
Entrada Gratuita
Exposição de fotos das oficinas
Quando: dia 24 de maio, às 14h
Onde: OMG Cultural - Rua Carolina Souza Costa Barros, n° 87 – Jardim Monte Cristo
Entrada Gratuita
Informações: Instagram @olhardadiversidade
Siga o perfil do Correio Popular no Instagram