O maestro Otávio Simões é sobrinho-trineto do compositor campineiro e atua na Orquestra Amazonas Filarmônica; ele virá a Campinas em setembro para o Mês Carlos Gomes

A linhagem de Carlos Gomes é uma honra da qual o jovem regente se orgulha, embora diga que a ópera é que o encontrou e não o contrário (Divulgação)
Dois maestros de ópera na mesma família, com um intervalo de tempo de mais de um século entre eles e ambos têm ligação direta com Campinas. Esta é a história de Carlos Gomes e um herdeiro musical: seu sobrinho-trineto, o maestro Otávio Simões. Ele é regente assistente da Amazonas Filarmônica e do Festival Amazonas de Ópera desde 2013 e maestro titular do Coral do Amazonas desde 2018 e soma mais de 50 títulos operísticos no currículo.
O vínculo com Carlos Gomes vai além: atualmente, o sobrinhotrineto participa da revisão das obras do maestro campineiro e presta consultoria musical para um filme em produção sobre a sua vida - um trabalho que aproxima passado e presente dentro da mesma linhagem.
A história deve ganhar um novo capítulo no dia 30 de setembro, quando o maestro planeja vir a Campinas para acompanhar o encerramento do Mês Carlos Gomes. A programação celebra os 190 anos de nascimento e os 130 anos da morte do compositor, figura central para a identidade cultural da cidade.
A visita coincide com um momento marcante também para Simões, que completa 22 anos de carreira no mesmo período. Em comum, além do sobrenome na árvore genealógica, os dois maestros compartilham a mesma escolha artística - a ópera -, separados pelo tempo, mas conectados pela música.
UM FILME E O CONVITE
O Correio Popular entrevistou Otávio Simões que virá a Campinas a convite do escritor Jorge Alves de Lima, biógrafo de Carlos Gomes e que é colaborador do jornal. Eles foram apresentados virtualmente pela produtora cultural Renata Sunega (ex-secretária de Cultura de Campinas), que está conduzindo duas produções audiovisuais sobre Carlos Gomes. Um documentário que será lançado ainda este ano – na forma de episódios para ser exibido em escolas, canais de televisão etc – e o filme “Força Indomável”, ainda sem data de lançamento.
Renata buscou informações históricas com o autor da mais completa biografia do maestro e pediu a ajuda musical do sobrinho trineto para as composições que serão usadas. Foi assim, nesse triângulo de informações, que Otavio finalmente vai participar de uma homenagem ao tio-trisavô que tanto admira. “Comentei sobre a consultoria do Jorge Alves de Lima, que ele conhece pelos livros, e eles acabaram trocando contatos, tem conversado bastante”, diz.
Para ela, “a ideia dos audiovisuais é ampliar o acesso à história vitoriosa de um brasileiro que pouca gente conhece: o músico saiu de Campinas, tinha descendência negra, a mãe foi assassinada e ainda assim consegue lançar ¨O Guarani¨, no Scala, de Milão, colocando um índio no palco, e na época do Verdi. É uma linda história que a gente precisa contar, e num formato que possa ser acessado pelos jovens em seus celulares”.
NOTAS E NOTAS
A nota de 5.000 Cruzeiros, que tinha a e efígie de Carlos Gomes, foi lançada em 1990 e vigorou até a transição para o Cruzeiro Real em 1993/1994. Ela era motivo de orgulho para o sobrinho-trineto, que cresceu ouvindo as histórias contadas pelo avô José Francisco Monteiro (1914-2009), que é sobrinho neto de Carlos Gomes. Embora morasse em São Paulo, Monteiro era campineiro e atuava como médico, repetindo com orgulho as histórias relatadas pela mãe, sobrinha que não chegou a conhecer o maestro.
“Na minha infância, Carlos Gomes era sempre lembrado na família e foi quando eu comecei a gostar de música. Meu avô me ensinou a conhecer os compositores, me introduziu na música, ensinou as primeiras notas”, conta Simões. Ele começou tocando teclado, foi para o piano, o canto coral e passou pela percussão. Além de maestro, é arranjador, mas não se considera instrumentista. “Para isso é preciso um tempo para praticar que eu não tenho”, explica.
Sobre o parentesco com o maestro, ele comenta que “é uma grande sorte, nasci com essa honra. Entendo que o Carlos Gomes é um patrimônio que tem que ser do Brasil, mas eu nunca utilizei disso para qualquer coisa, tanto que poucas pessoas sabem”, relata.
TRAJETÓRIA
Nascido na capital paulista, graduou-se em Regência pela Universidade de São Paulo (USP). Trabalhou em temporadas líricas no Theatro Municipal de São Paulo, atuou como regente assistente da Orquestra de Câmara da USP e regeu como convidado várias orquestras pelo Brasil. Sua trajetória inclui também o teatro musical com mais de uma dezena de produções. Em paralelo à atividade de palco, mantém uma atuação intensa como criador de materiais musicais: é autor de mais de 300 arranjos, transcrições, orquestrações e adaptações.
“Não fui eu que escolhi a ópera, foi a ópera que me chamou”, conta o maestro. Ele começou a trabalhar com música fora do estilo operístico, mas relata que foram surgindo oportunidades nessa área sem que ele as buscasse, começando no Teatro Municipal de São Paulo e evoluindo para o que exerce hoje. “Quando eu vi, já estava aqui em Manaus dentro do Festival Amazonas de Ópera”, brinca.
REVISÃO DAS OBRAS
As obras de Antônio Carlos Gomes (1836 - 1896) precisam de um trabalho cuidadoso de revisão, pois na opinião do regente, muitas delas foram reeditadas ao longo de 150 anos, passando pelas mãos de muitos maestros. “Em muitas delas não sabemos se foram escolhas de Carlos Gomes ou se dos maestros que, por vezes, podem ter feito alterações para adaptar à realidade de seus teatros ou orquestras”, comenta. Por isso, ele tem trabalhado sobre as fotos dos manuscritos originais, revisando e corrigindo os materiais publicados com erros ou divergências.
Esse trabalho já foi feito na ópera Salvator Rosa (também conhecida como Salvador Rosa), a quinta ópera do compositor brasileiro, que vai estrear em 17 de maio, no Teatro Amazonas. Depois, ela será apresentada no Rio de Janeiro, mas lá será regida pelo maestro titular Luiz Fernando Malheiro, considerado um grande especialista na música de Carlos Gomes. “Então eu tive essa bênção de trabalhar com ele”, afirma.
PREFERÊNCIAS
Questionado se tem algum compositor, além de Carlos Gomes, que gosta de reger ou ouvir, Simões responde: “meu compositor preferido é o que eu estiver estudando na semana, mas é claro que tem alguns que eu realmente tenho um carinho especial, como Heitor Villa-Lobos”.
Simões ressalta que se surpreende com a efervescência cultural de Manaus, onde mora. “O Teatro Amazonas é uma fábrica de eventos culturais, de pluralidade cultural, praticamente todos os dias tem espetáculo no teatro, de todas as cores, das mais singulares às mais sofisticadas, então nossa programação da orquestra é muito intensa. O imenso celeiro de artistas que o Amazonas tem é impressionante e tem público para todos, o teatro nunca está vazio, vem todas as idades e classes sociais”, diz
Ele adotou como rotina, no início de todos os concertos – tanto os eruditos quanto os populares - de conversar com o público explicando sobre o que eles vão ouvir. “Isso faz com que as pessoas se sintam dentro da orquestra, sentem que sou um ser humano igual a eles e isso aproxima a plateia da música. Recebo feedbacks maravilhosos sobre isso, as pessoas me escrevem dizendo que isso faz toda a diferença”.
Solteiro, sem filhos, Simões comenta que atualmente dedica 100% de seu tempo à música. Suas paixões atuais estão nos sobrinhos, um que está no Brasil com 15 anos com quem tem grande afinidade e dois outros que nasceram há pouco tempo e moram nos Estados Unidos.
Siga o perfil do Correio Popular no Instagram