CADERNO C

Sinfônica ganha sotaque do sul

Maestro de Porto Alegre, Evandro Matté foi nomeado ontem novo regente da Orquestra de Campinas e pretende ampliar a visibilidade do grupo no cenário nacional e internacional

Cibele Vieira/[email protected]
28/04/2026 às 13:38.
Atualizado em 28/04/2026 às 14:19
Com dupla nacionalidade, Evandro Matté liderou a votação em lista tríplice apresentada pela Associação dos Músicos e que incluiu os maestros Knut Andreas (alemão) e Gustavo Fontana Kadekjian (argentino) (Divulgação)

Com dupla nacionalidade, Evandro Matté liderou a votação em lista tríplice apresentada pela Associação dos Músicos e que incluiu os maestros Knut Andreas (alemão) e Gustavo Fontana Kadekjian (argentino) (Divulgação)

O aguardado anúncio do nome do novo regente que assume a Orquestra Sinfônica de Campinas foi feito ontem (27) por meio de uma publicação no Diário Oficial de Campinas: Evandro Matté. Por telefone ele deu uma breve entrevista ao Caderno C, quando revelou que já regeu a Sinfônica Municipal em duas oportunidades (2019 e 2025), e percebeu a conexão intensa da cidade com a música de concerto e a música popular, o que pretende dar continuidade e ampliar. Faz parte de seus planos dar visibilidade nacional a esse trabalho e diz que, embora ainda não tenha uma data definida para sua estreia na cidade, espera estar regendo o concerto de aniversário, em julho. Até lá, a agenda segue com regentes convidados. 

Com 56 anos de idade, brasileiro com dupla cidadania (descendência italiana da família Matteo que no Brasil virou Matté) e morando atualmente em Porto Alegre (RS), Evandro é reconhecido não apenas como regente musical, mas também como um bom gestor de projetos culturais. “Conheço a orquestra de Campinas há muito tempo, é uma das mais importantes e tradicionais de nosso país”, comentou ao abordar o quanto está contente com a escolha. “As duas vezes que atuei como regente foram experiências muito boas, adorei trabalhar com a orquestra e, já de cara, gostei muito da cidade”, declarou. A qualidade musical e conexão com Campinas e seu público são fatores que ele preza. 

PERFIL DIVERSIFICADO 

O que muita gente pergunta é qual o perfil do novo maestro. E ele responde: do ponto de vista artístico, meu forte é a diversificação. E cita que quando iniciou seu trabalho como Diretor Artístico na Orquestra Sinfônica de Porto Alegra (Ospa), não se fazia ópera e nem balé, mas passou a fazer e, muito ligado à educação e ações sociais, ampliou iniciativas voltadas para crianças por meio de ensinos didáticos. Além de maestro, ele foi o fundador do Festival Internacional SESC de Música – Pelotas, e realizou os Concertos Comunitários Zaffari. 

“Sempre procurei alinhar a carreira de músico com a gestão. Gosto de entender e me inteirar dos processos e trabalhar também na área de planejamento e construção da gestão, porque isso às vezes evita problemas estruturais e de condições de trabalho, por isso busquei formação nisso também”, afirmou. 

PRIORIDADE 

O novo regente explica que pretende, em breve, fixar residência em Campinas. “Tenho algumas datas previamente agendadas com a Orquestra Theatro São Pedro, em Porto Alegre, além de compromissos com outros grupos no Brasil e no exterior. Ainda assim, deixo claro que minha prioridade será Campinas”, afirma. A Orquestra Theatro São Pedro é uma corporação privada e com uma programação enxuta, na qual o maestro pretende permanecer atuando como diretor, mas não como regente. 

Questionado sobre os desafios do novo cargo, o maestro ressaltou que, primeiro, precisa se inteirar melhor da situação interna. Mas adianta que “sem dúvida o desafio é manter a orquestra de Campinas dentro do círculo das grandes orquestras do país, afinal ela vai completar 100 anos 2029 e acho que é nesse caminho que a gente precisa continuar e ampliar as ações dentro de um limite possível, e talvez a orquestra mereça – por sua história e sua estrutura - sair um pouco do limite de Campinas e se projetar nacionalmente e talvez até fora do País”. 

DESAFIOS 

Sobre a nomeação dos músicos que haviam sido aprovados em concurso e ainda não contratados, ele disse que considera “este um tema prioritário, pois uma orquestra é um organismo particularmente complexo no que diz respeito à gestão e à entrega artística. Seu resultado depende diretamente de um grupo coeso, com identidade musical própria e bem estruturado. Para que isso seja possível, é fundamental que o quadro de músicos esteja completo — ou o mais próximo disso —, sempre em conformidade com as exigências legais que regem as nomeações no setor público”. 

Uma das críticas feita pelo maestro Carlos Prazeres, quando deixou o cargo, foi em relação à acústica da sala de concertos Luis Otávio Burnier, no Centro de Convivência Cultural, que ele alega ter um som seco. Sobre isso Matté revelou que é Engenheiro Civil de formação e, embora nunca tenha exercido a profissão, tem orgulho de contar que foi o coordenador da construção de dois teatros em Porto Alegre: o da universidade jesuíta Unisinos e a sala de concertos da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Por ter boa expertise na área, se dispõe a conhecer o espaço, conversar com os músicos e avaliar a necessidade de ajustes. 

CONEXÕES DE VALOR 

Durante uma década (2015- 2024) Evandro Matté foi Diretor Artístico da OSPA à qual esteve vinculado por 35 anos, inicialmente como trompetista, sua formação original como músico. “A Ospa tem um vínculo muito forte e histórico com a sociedade, mesmo perfil que observei em Campinas. Nas duas vezes que estive regendo na cidade, senti essa relação muito próxima do público com a orquestra, e isso me encantou, pois é parecido com a minha experiência aqui. Creio que estas duas oportunidades fizeram com que meu nome fosse indicado pelos músicos”, comentou. 

As lembranças do trabalho do maestro Benito Juarez são constantes na mente do novo maestro. “Lembro dele, que foi o precursor no Brasil dessa conexão da música de concerto com a música popular, ele abriu caminhos para esse tipo de espetáculo de maneira bastante intensa e a cidade ficou famosa por isso.” A música de concerto é obrigação de uma orquestra – respeitando o repertório nacional e também o que é feito fora e as novidades da música contemporânea -, diz, ao ponderar que como músico (trompetista) tem como origem a música popular, mas ressalta que não faz distinção entre as duas. “O importante é fazer bem-feito”, ressalta. 

“Podemos alcançar diferentes públicos com nossa música”, destaca Matté: “às vezes, quando atendemos determinado público com um estilo específico, de alguma forma estamos angariando essas pessoas para outros estilos, por isso é importante que uma orquestra tenha uma programação bem diversificada”. Por isso, pretende manter a linha que vinha sendo adotada, mas discutindo internamente como ampliar esse alcance. 

LISTA TRÍPLICE 

Indicado pela Associação dos Músicos da Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, em uma lista tríplice integrada pelos maestros Knut Andreas (alemão) e Gustavo Fontana Kadekjian (argentino), o brasileiro Matté se diz honrado por ter sido escolhido. Para o presidente da Associação, Daniel Danzi, “um dos principais motivos da escolha foi sua trajetória de trabalho, conhecimento técnico e resultados apresentados em sua trajetória, trata-se de um maestro e gestor experiente”. 

Pelas redes sociais houve questionamentos sobre o fato de ser o único brasileiro da lista, ao que a Secretaria de Cultura respondeu em nota: “além da ampla adesão entre os integrantes da orquestra, o maestro reúne reconhecida competência artística e experiência em gestão cultural, fatores que reforçaram sua indicação e posterior nomeação. A presença de maestros estrangeiros em orquestras é uma prática comum e consolidada no cenário musical, tanto no Brasil quanto no exterior”. 

TRAJETÓRIA 

Foi por meio do trompete que aos 7 anos de idade, Evandro Matté iniciou seus estudos em música. Aos 15 anos passou a integrar a orquestra profissional da sua cidade natal, a Orquestra Sinfônica de Caxias do Sul. Em Porto Alegre, iniciou seus estudos na Escola de Música da OSPA. Aos 19 anos assumiu a cadeira de trompetista e ingressou no curso de graduação em música pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Especializou-se na Universidade da Georgia (EUA) e no Conservatoire de Bordeaux (FRA). Iniciou a regência em 2007, passando pela Orquestra Unisinos Anchieta e pela Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, além de atuar com orquestras no Brasil e vários outros países. Seu trabalho pode ser visto no site https://evandromatte.com/ ou Instagram @evandromatte.maestro

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