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Trabalho de Os Trapalhões vira tese de doutorado da Unicamp

André Carrico trabalha com a história da comédia popular brasileira

Delma Medeiros
02/06/2013 às 05:01.
Atualizado em 25/04/2022 às 13:50

Pesquisador da história da comédia popular brasileira, tema de sua tese de doutorado no Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o ator e diretor de teatro André Carrico escolheu um tema de doutorado na mesma linha e que chegou a provocar um certo estranhamento no meio acadêmico. "Os Trapalhões no Reino da Academia: Revista, Rádio e Circo na Poética Trapalhônica" é o título da tese que apresentou no IA, sob a orientação da professora Neyde Veneziano.

“Comecei a atuar ainda criança e sempre estive ligado ao teatro de rua. Nunca atuei em circo, mas fui palhaço em teatro. Sempre me voltei para a cultura popular e daí cheguei a Os Trapalhões”, explica Carrico, citando que todos de sua geração, crianças entre o fim dos anos 1970 e começo dos 1980, acompanharam o trabalho do quarteto trapalhão.

Carrico diz que, para o mestrado, mergulhou profundamente na cultura popular, pelo recorte do projeto do dramaturgo Luiz Alberto de Abreu, tese que defendeu em 2004. “Depois disso me afastei um pouco do meio acadêmico e assumi o cargo de diretor de Cultura de Valinhos”, conta.

Quando deixou o cargo, em 2007, começou a elaborar o projeto da tese, mergulhando efetivamente na pesquisa em 2010. “Foquei em três vertentes: o teatro de revista, o humorismo radiofônico e o circo”, informa.

Segundo Carrico, o quarteto é uma reunião exemplar dessas vertentes. O foco é o período de 1978 a 1990, em que o grupo esteve completo com Antônio Renato Aragão (Didi), Manfried Santana (Dedé), Antônio Carlos Bernardes Gomes (Mussum) e Mauro Gonçalves (Zacarias). “O grupo tem formações anteriores e posteriores, mas nas palavras de Renato Aragão, eram essas ‘as quatro pernas de uma mesa’.”

“Dedé nasceu numa barraca de circo, era palhaço. Mussum passou pelo teatro de revista como músico dos Originais do Samba, contracenando com figuras como Grande Otelo. E Zacarias é formado pelo rádio, foi radialista em Sete Lagoas e depois em Belo Horizonte (MG), sempre interpretando tipos caipiras.”

Renato Aragão, a quem Carrico teve a oportunidade de entrevistar pessoalmente (depois de seis meses de negociações), disse ao pesquisador que o personagem Didi é uma influência da chanchada. “Na verdade, Renato Aragão veio a fazer cinema porque queria ser como Oscarito, seu grande mestre, que por sua vez era de família circense, acrobata e palhaço. Minha impressão é de que convivendo no universo interiorano de Sobral (Ceará), ele também assistiu a muitos espetáculos de circo, trazendo da infância alguma coisa inspirada nos palhaços.” Na entrevista, Aragão contou que o primeiro filme que viu de Oscarito, "Carnaval no Fogo", gostou tanto que assistiu 17 vezes. O segundo, "Aviso aos Navegantes", ele viu 15 vezes. “Ele imitava mesmo o Oscarito, assistia tanto para pegar todos os trejeitos, as acrobacias, as lutas corporais. Aragão aprendeu tudo isso também.”

Na conversa com o humorista, o pesquisador teve a certeza de que o líder pensava o grupo efetivamente como um projeto, e que as “quatro pernas da mesa” não foram montadas ao acaso. “Ele chamou primeiramente Dedé e depois Mussum e Zacarias, conjugando as potencialidades individuais de cada elemento também em termos de regionalismo e geografia humana: em Mussum, temos o negro e o malandro do morro; em Dedé, o sujeito de periferia e de origem indígena e cigana; em Zacarias, o caipira mineiro; e em Didi, o nordestino.”

Mussunguês

Carrico cita ainda que sua orientadora observou que o linguajar de Mussum, que ele chama de “mussunguês”, está registrado no teatro de revista. “Se pegarmos os textos dos anos 1930, veremos um tipo fixo que é o da mulata e que fala de maneira idêntica, forçando os ‘is’ no fim das palavras: patrãozis, senhorzis, mézis, afazerezis. Dedé Santana me disse que Chico Anysio teria ensinado Mussum a falar desse jeito, mas também vejo o mesmo beiço e outros trejeitos de Grande Otelo, de quem era coadjuvante no programa de televisão Bairro Feliz.”

Campeão de audiência

Carrico observa que, apesar de malvistos pela crítica, Os Trapalhões figuraram entre os grandes campões de audiência da TV e no cinema. “Durante 32 anos, a terceira bilheteria de um filme nacional pertenceu a eles, com "Os Trapalhões nas Minas do Rei Salomão", perdendo apenas para "Dona Flor e seus Dois Maridos" (1976) e "A Dama do Lotação" (1978). Se a classificação for como cinema infantil, eles permanecem como os mais assistidos até hoje”, diz Carrico, acrescentando que mesmo com o boom de produções nacionais nos últimos anos, Os Trapalhões mantêm quatro filmes na lista dos dez primeiros, tendo caído para o 4º lugar apenas em 2009, com "Tropa de Elite 2", e para o 5º lugar com "Se Eu Fosse Você".

Preconceito

André Carrico explica que sua tese sobre Os Trapalhões é técnica, sobre recursos de atuação, mas afirma que sentiu o preconceito ao tema mesmo entre colegas da pós-graduação. “Minha orientadora Neyde Veneziano aceitou o tema porque também viveu o mesmo problema nos anos 80, quando levou à academia o teatro de revista, assunto nunca antes abordado no Instituto de Artes. O preconceito existia na época e continua até hoje, tanto que não consegui financiamento (bolsa) para o projeto. Vi muito nariz torto diante da minha pesquisa, ainda mais em se tratando de Os Trapalhões, mas a professora insistiu que a proposta era justamente a de quebrar tabus. Não discuto a qualidade dos filmes, e sim as qualidades dos membros do quarteto que fizeram o projeto perdurar, bem como o que há de significativo em termos de procedimentos da comédia popular”, diz o diretor. “Mesmo numa universidade de vanguarda como a Unicamp, esse ranço persiste.”

Em seu trabalho, Carrico incluiu um adendo sobre o politicamente correto nos esquetes de Os Trapalhões, entendendo que o humor do quarteto não encontraria espaço nos dias atuais. “Acho que há muita hipocrisia, pois a linguagem é uma coisa viva e tudo depende da entonação com que se diz. Mussum, por exemplo, bebia na vida real e fazia piada com isso; hoje, as patrulhas do politicamente correto não admitiriam um palhaço que bebe, embora eu não conheça ninguém da minha geração que ria dele quando criança e tenha se tornado alcoólatra. Também não me lembro de ninguém que bata em mulher por ter visto as brincadeiras com conotações machistas, sexistas ou homofóbicas do grupo.”

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