De clássicos da TV a séries da Netflix e games, profissionais da interpretação vocal da cidade emprestam sua sensibilidade a produções que alcançam públicos em diferentes países

Cátia Massotti dubla personagens como Lisboa, de La Casa de Papel, Sophie Lennon, de The Marvelous Mrs. Maisel e Samira, de League of Legends; Luiz Nunes, um dos nomes mais respeitados da dublagem nacional e Renan Alonso (à direita), que já participou de mais de 170 produções (Thais Mazzoco / Arquivo Pessoal)
Poucos países desenvolveram uma relação tão afetiva com a dublagem quanto o Brasil. Desde as primeiras versões em português de filmes e seriados estrangeiros, entre as décadas de 1950 e 1960, a técnica deixou de ser apenas uma adaptação linguística para se tornar uma arte de interpretação. Ao longo das décadas, artistas brasileiras passaram a marcar gerações inteiras, transformando as vozes de personagens internacionais em parte do imaginário nacional.
A excelência desse trabalho fez do país uma referência mundial. E, longe dos grandes centros tradicionalmente associados ao setor, Campinas também ocupa lugar de destaque nessa história. A cidade reúne profissionais que emprestam suas vozes a sucessos globais do cinema, da televisão, dos animes e dos videogames.
Mais do que sincronizar palavras com o movimento da boca dos personagens, a dublagem exige formação artística, domínio técnico e sensibilidade cultural. “Para ser dubladora é necessário ser atriz profissional”, explica a campineira Cátia Massotti, atriz, diretora, professora de teatro e mestre em Artes pela Unicamp. Há 13 anos no mercado, ela dubla personagens como Raquel Murillo, a Lisboa, da série La Casa de Papel, além de Sophie Lennon em The Marvelous Mrs. Maisel e Samira no game League of Legends.
Segundo Cátia, o trabalho vai muito além da atuação diante do microfone. “Exige consciência vocal, um conhecimento profundo de interpretação e experiência com a técnica.” Ela lembra que cada produção envolve tradutores, adaptadores, diretores, técnicos de áudio, controle de qualidade e mixagem.
Para a artista, o impacto da dublagem é também social. “Consideramos que a nossa voz tem uma função maior do que caber no lip sync. Pessoas com deficiência visual ou baixa visão, pessoas com deficiência intelectual e pessoas não alfabetizadas podem ter acesso à obra audiovisual através da voz dublada.” Nesse sentido, ela define a profissão como um importante instrumento de acessibilidade.
Veterano da área, Luiz Nunes é um dos nomes mais respeitados da dublagem nacional. Natural de Junqueirópolis e radicado em Campinas desde 1983, soma 51 anos de carreira. Formado pela Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo, dublou atores como Robert Redford e Ben Kingsley, além de personagens como Megatron, da franquia Transformers, e Drácula na série Castlevania.
Um de seus trabalhos mais marcantes foi a voz do herói de Spectreman. “Até hoje sou referência no assunto e recebo muitas mensagens de seguidores me tratando como o grande Spectreman”, conta.
Nunes acredita que a força da dublagem brasileira está na capacidade de adaptação cultural. “Somos referência mundial porque priorizamos a nossa cultura. Adaptamos as piadas, trazemos para o nosso contexto. O brasileiro é visto como perfeccionista em se fazer entender sem deixar de respeitar o original.”
O ator, dublador e diretor de dublagem Renan Alonso atua na área desde 2012 e já participou de mais de 170 produções. Seu personagem mais conhecido é Morty, da série animada Rick and Morty, que chega à nona temporada em 2026. Para ele, o alcance emocional da profissão é incomparável. “Quem não tem uma memória afetiva de alguma dublagem, nem que seja de um filme da Sessão da Tarde?”
Renan também acompanha com cautela o avanço da inteligência artificial nos estúdios. “A tecnologia pode agilizar processos e melhorar a qualidade do trabalho, mas vejo a IA muito mais como uma ameaça, porque o mercado muitas vezes não se preocupa com as vidas humanas por trás do trabalho”, afirma. Apesar das incertezas, os profissionais de Campinas mantêm uma visão otimista. Nos estúdios, a interpretação, a sensibilidade e o domínio técnico continuam sendo indispensáveis para dar vida aos personagens. Por enquanto, e ao que tudo indica ainda por muito tempo, o talento humano segue insubstituível, e é ele que garante a qualidade artística que tornou a dublagem brasileira admirada em todo o mundo. Para conhecer mais sobre os trabalhos dos dubladores citados, acesse: Instagram: @catia.massotti Youtube: www.youtube.com/c/LuizNunesArtMaker https://youtube.com/@renan_alonso
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