ENTREVISTA

Epilepsia sem mitos

Mais informação: mesmo sendo grave, doença não impede as pessoas de terem uma vida normal; atividades para conscientizar a população serão realizadas este mês em todo o País

Karina Fusco
08/09/2013 às 05:00.
Atualizado em 25/04/2022 às 03:14

A epilepsia é uma doença neurológica grave e, talvez por isso, cercada por mitos – um deles, por exemplo, versa que a enfermidade é transmissível. Com o objetivo de desvendar essa e outras crenças e esclarecer dúvidas a respeito dessa doença que atinge cerca de 1% da população mundial, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), palestras e conversas com a população leiga serão realizadas Brasil afora ao longo deste mês, já que amanhã comemora-se o Dia Nacional e Latino-Americano de Conscientização da Epilepsia. Em Campinas, o evento acontece no próximo sábado (14), no anfiteatro da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).  O médico neurologista Li Li Min, da FCM, também membro do Programa de Cirurgia de Epilepsia e do Laboratório de Neuroimagem da Unicamp, é um pesquisador referência no assunto e um incansável defensor da necessidade de favorecer a inserção dessas pessoas na sociedade e de utilizar diferentes mecanismos para melhorar a qualidade de vida delas. “Embora seja uma doença bastante conhecida, ainda existem muitos equívocos e preconceito”, diz.Há dois meses, o especialista recebeu o prêmio de Embaixador da Epilepsia no Brasil, concedido pelo International Bureau for Epilepsy e pela International League Against Epilepsy, durante o 30o Congresso Internacional de Epilepsia, em Montreal, no Canadá. Em conversa com a Metrópole, ele falou sobre o panorama da doença na região e no País e os avanços no tratamento, além de esclarecer questões como a conduta ideal ao se deparar com alguém em convulsão.  Metrópole – Quando o senhor começou a pesquisar a epilepsia?Li Li Min – Desde a minha residência médica, em 1990, foco minha pesquisa no tema. Coordenei a parte brasileira de um projeto chamado Epilepsia Fora das Sombras, que integrou uma campanha da OMS para levar informações corretas sobre a doença à população e formular modelos de atendimento a pacientes na atenção básica. Ele começou em Campinas e foi ganhando território.  Quais foram os resultados desse projeto científico?Eles mostram que é possível cuidar de pacientes com epilepsia no atendimento básico, dando a eles maior qualidade de vida. Essa conclusão é proveniente de quatro unidades básicas de saúde, onde foram tratados 181 cidadãos durante 26 meses, com redução da média de crises de uma a três por mês para essa mesma quantidade anualmente. Para isso, é necessário treinar e qualificar os profissionais da saúde e esclarecer a população sobre a doença.  Qual é a estimativa de pessoas com a enfermidade na Região Metropolitana de Campinas (RMC)?Por meio de um levantamento realizado na RMC, a estimativa é que 1% da população tenha a doença. A proporção é semelhante à mundial. Porém, grande parte dessas pessoas vive escondida, excluídas da sociedade. O preconceito ainda é muito grande, assim como as atitudes de distanciamento de quem sofre com o problema. Por isso, há um grande trabalho de desmistificação a ser feito. Afinal, por trás da epilepsia estão cidadãos que podem estudar, trabalhar e ter vida social.  Quais são os principais mitos acerca da epilepsia?Mesmo com tanta informação nos dias de hoje, acredita-se ainda que as pessoas podem engolir a língua durante as crises e que o excesso de saliva que escorre pela boca é contagioso. Sem contar os procedimentos errados com o intuito de ajudar durante as convulsões, como colocar dedo ou caneta na boca do paciente para tentar segurar a língua ou passar álcool ou vinagre na testa. E ainda tem aqueles que se afastam com medo de ser possessão demoníaca.  Qual é o procedimento correto ao se deparar com alguém em uma crise convulsiva?Ao presenciar alguém nessa situação, primeiramente é preciso manter a calma e não restringir os movimentos dela. É importante virá-la de lado, para que não corra o risco de engasgar com o excesso de saliva, e proteger a cabeça, colocando uma peça de roupa embaixo dela ou apoiando-a com as mãos, além de afastar objetos que ofereçam riscos de ferimentos. Se a pessoa estiver com uma blusa apertada, deve-se soltar um pouco a gola para maior conforto e, sobretudo, não colocar nada na boca dela. Geralmente, as crises duram entre alguns segundos e dois minutos e as pessoas recobram a consciência sozinhas. Somente se a crise permanecer por mais de cinco minutos é que se trata de uma situação de emergência e existe a necessidade de acionar o Samu pelo 192, para que ela seja levada a um hospital. Pequenas crises consecutivas ou o fato de a consciência não ser recobrada totalmente também justificam a busca imediata por atendimento.  Além da convulsão, há outros sintomas ou manifestações do problema?A crise convulsiva é o tipo mais comum e prontamente reconhecida e diagnosticada. Entretanto, existem outros tipos de crises, como uma na qual a pessoa tem sensação de medo, de estranheza ou de “algo” na barriga, seguida de alteração da consciência, ficando com olhar vago, fazendo movimentos repetitivos de braço e de mastigação ou tendo breves episódios de “desligamento”. Há outros sintomas e eles se apresentam conforme a região do cérebro acometida pelas crises.  Como elas podem ser controladas?Tomando medicamentos diariamente. Mas, infelizmente, grande parte dos pacientes brasileiros não recebe tratamento adequado e, sem controle da doença, aumentam os casos de morte súbita. Há pacientes que não tomam qualquer medicação e outros casos em que a dose prescrita não está correta.  Existem outros tratamentos, além do medicamentoso?Sim. Existe tratamento cirúrgico para aqueles que não respondem aos remédios, o que representa 30% dos pacientes. Mas as cirurgias são feitas somente em centros especializados, e a Unicamp é um deles, além de ser referência nacional para a investigação da origem da epilepsia. Há, ainda, a dieta cetogênica, que consiste na ingestão de alimentos ricos em gordura sem carboidratos, e o uso do estimulador vagal, um aparelho implantado no corpo que emite estímulos elétricos no nervo vago. Porém, vale ressaltar que existem novos medicamentos em investigação e que a busca pela cura persiste nas pesquisas.  O senhor citou que a Unicamp é referência na investigação sobre a causa da epilepsia. O que já é possível saber sobre isso?A principal causa da epilepsia é adquirida por meio de traumas cranianos, lesões ou má-formações cerebrais. Apenas uma pequena porcentagem é genética. Sabemos também que 50% dos pacientes desenvolvem a doença na infância e adolescência, o que leva a outro problema, que é a falta de preparo de educadores para cuidar dos alunos, fazendo com que muitos sejam excluídos ou desistam da vida escolar. Por isso, um dos focos do nosso trabalho é levar informações corretas sobre o problema às escolas e à população em geral.

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