Os traços finos e a riqueza nos detalhes evidenciavam um talento bruto, pronto para ser lapidado. Quis o destino que a carreira de desenhista fracassasse
Os traços finos e a riqueza nos detalhes evidenciavam um talento bruto, pronto para ser lapidado. Quis o destino que a carreira de desenhista fracassasse. Os planos eram outros, mas ainda envolviam as mãos de Éder Jofre. Ao invés de ser um artista reconhecido por suas obras, virou um personagem dos ringues. Ali, a velocidade dos punhos impressionava. O nível apresentado foi tão alto que até hoje seu nome ecoa. Trata-se do melhor peso-galo da história do boxe. O "Galinho de Ouro", como é conhecido, cresceu em uma família cercada de pugilistas. Seu pai, por exemplo, era o lendário Kid Jofre, um dos mais respeitados treinadores no mundo. Nem toda a influência, porém, levou o pequeno Éder para esse caminho em um primeiro momento. Foi preciso um acidente para que a história mudasse. "Era um sonho ser desenhista e eu poderia ter realizado se o teto do Liceu de Artes e Ofício não tivesse caído. Perdi todo meu material, comprado a duras penas, e foi quando Deus me encaminhou para outra estrada, a do boxe", relembra o ídolo brasileiro. Apesar do caminho seguido ter sido o do esporte, Jofre não deixa de se considerar um artista pelo que fez. Foram 81 lutas, com 75 vitórias, sendo 50 por nocaute, além de quatro empates e apenas duas derrotas. Em toda sua carreira, o Galinho se orgulha de jamais ter beijado a lona. "Para mim, o boxe sempre foi mais que uma modalidade. Se eu era um artista ou não, fica a critério de quem me viu lutar." Depois de quatro anos como amador, ele se profissionalizou e em 1957 começou a caminhada no peso-galo. Rapidamente se tornou campeão brasileiro e sul-americano, até conquistar o título mundial pela National Boxing Association, vencendo por nocaute o mexicano Eloy Sanchez. Mais tarde, unificou os títulos da categoria ao vencer o irlandês Jhonny Caldwell, campeão da versão europeia. Foram sete defesas de cinturão, todas por nocaute, até as contestadas derrotas para o japonês Masahiko Harada. “Certamente que fatores externos me deixaram muito debilitado, principalmente o problema com o corte de peso”, comentou. Após um período sem lutar, voltou em 1970 no peso-pena e novamente fez história ao vencer 25 combates, entre eles, o do título mundial contra o cubano José Legra. "Ser bicampeão é gratificante e único. É inexplicável, principalmente pelo reconhecimento que ultrapassa nossas fronteiras. Um teve aquele sabor de ganhar a primeira vez, já o outro foi minha ressurreição como atleta", disse. Os enormes feitos renderam comparações com Pelé, astro do futebol e apontado por muitos como o maior jogador da história. O pugilista leva isso com humor. “Talvez o Pelé seja o Éder Jofre do futebol (risos). Brincadeira, penso que é uma alegria muito grande ter esse status, haja vista que o Pelé é referência no esporte, do que há de melhor”, explicou. Ao olhar para trás, só o que carrega na memória são lembranças boas de sua brilhante trajetória. O caminho não foi nada simples. Até por conta disso, Éder sempre faz questão de ressaltar toda a importância do pai em sua vida. “Pode ser que meu pai quisesse que eu me tornasse boxeador até mais do que eu mesmo. Porém, se eu não tivesse o dom e também não quisesse, nada teria acontecido. Evidentemente sua energia e conhecimento, aliado ao amor, foram determinantes em minha carreira”, diz o artista do ringue. Brasileiro está no hall da fama Tantas conquistas fizeram com que Éder Jofre fosse eleito por especialistas, em 1992, para o hall da fama do boxe mundial. Até hoje ele é o único brasileiro que conseguiu tal façanha. O fato provoca uma mistura de sentimentos no Galo de Ouro. “É ao mesmo tempo magnífico e triste. Ser o único é constatar que o Brasil não aproveitou o tempo em que fui campeão e estimulei muita gente a lutar. A falta de apoio do governo foi preponderante para que isso acontecesse”, afirmou o ex-pugilista, hoje com 82 anos de idade. Já quando o assunto é a sua batalha mais difícil, ele conta que o combate com o Joe Medel em 1960 foi extremamente complicado. A luta era eliminatória para a disputa do título mundial, e a vitória veio só no décimo assalto, com uma sequência incrível. “O Medel era um pugilista de muitos predicados, muita qualidade e tive que fazer valer tudo o que sabia para ganhar dele. Depois da luta, tive certeza de que seria campeão.” DICAS A pedido do Correio, Éder Jofre deu dicas para os jovens que têm o sonho de se profissionalizar no boxe. Só comece se tiver muita dedicação e persistência, porque será sua cara e integridade física que estarão em jogo. A família é a base de tudo, então, se tiver o apoio, o caminho será menos complicado.