
Torcedora da Ponte Preta durante o clássico contra o Guarani no dérbi 213, disputado no Estádio Moisés Lucarelli, em Campinas (Marcos Ribolli/PontePress)
Quando o estádio Moisés Lucarelli abre suas portas para as partidas do futebol profissional, as arquibancadas acolhem mulheres de todas as raças, credos e condições econômicas. Elas representam um contingente de apaixonadas presentes em todos os clubes. Pesquisa encomendada no ano passado pela CBF e realizada pela Nexus mostra que 69% das mulheres torcem por uma equipe, percentual elevado se levarmos em conta que o machismo ainda é uma barreira para viabilizar conquistas.
Apesar disso, elas não se intimidam e relembram caminhos tortuosos, algo presente até na Ponte Preta. A advogada Lucimara Ferreira, por exemplo, aponta que a semente da paixão pontepretana é plantada de onde menos se espera. “Acredito que a maioria de nós, mulheres, herdamos a paixão pela Ponte Preta através de um homem, seja o pai ou o irmão. E isso é muito contraditório. Assim como o racismo, o machismo é muito presente na sociedade e ele é forte no futebol”, disse a advogada.
No fomento desta paixão, uma série de obstáculos são encontrados, muitos bem desagradáveis. “Eu sofri assédio físico no Majestoso apenas uma vez. Ainda assim, conheço inúmeras mulheres e amigas que já passaram por situações constrangedoras. O ambiente do futebol, que deveria ser de paixão e pertencimento, muitas vezes ainda se mostra hostil para quem é mulher”, lamentou a dona de casa e estudante de Direito, Aline Zanchetta.
Ela não deixa de apontar o longo caminho que deve ser percorrido para que o Majestoso e o próprio futebol se transformem em um ambiente acolhedor. “A luta por respeito é constante, mas ainda estamos longe do cenário ideal. Isso fica evidente quando observamos as reações nas arquibancadas, nas redes sociais ou em páginas esportivas sempre que há uma árbitra ou auxiliar em campo”, pontuou.
Nem tudo são espinhos. A Ponte Preta e sua história de resistência contra o racismo também contemplam as mulheres. Basta relembrar que Donana e Conceição foram as representantes oficiais das arquibancadas por várias décadas. E tal acolhimento não é desprezado pelas torcedoras. “Como uma mulher apaixonada pela Ponte Preta, me sinto representada e abraçada por um time que tem como mascote uma figura feminina: a Macaca”, celebrou a estudante de Pedagogia, Isadora Sulinsk. “Tenho plena consciência de que o machismo está em todo lugar e não é diferente dentro dos estádios. Por muitas vezes me senti desmoralizada pelo simples fato de ser uma mulher que gosta de futebol, que ama a Ponte”, revelou Isadora.
Ser pontepretana é tão singular que algumas mulheres construíram um espaço de opinião e de influência nas arquibancadas. Exemplo disso é a bancária Andrea Belletti, que admite viver uma situação diferenciada. “Dentro da minha realidade, nunca senti que minha opinião e presença fossem desvalorizadas por ser mulher. Acho que tenho essa sorte”, analisou. Seu privilégio não é solitário. “O machismo no futebol existe, mas como mulher pontepretana me sinto acolhida e respeitada. Fico muito à vontade nas arquibancadas do Majestoso, pois podemos participar ativamente da nossa grande paixão. Sinto orgulho de ser pontepretana”, arrematou a pedagoga Renata Dall Gallo.
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