tênis

Um argentino que escolheu o Brasil

Não importa a modalidade, quando se fala de Brasil e Argentina, a rivalidade é capaz de tirar do sério até o mais centrado

Alison Negrinho
19/11/2018 às 22:01.
Atualizado em 06/04/2022 às 00:04

Não importa a modalidade, quando se fala de Brasil e Argentina, a rivalidade é capaz de tirar do sério até o mais centrado. Agora imagine uma criança nascida em Buenos Aires desembarcar em solo tupiniquim, ainda que sem entender muita coisa, e encontrar ali seu espaço no mundo. Foi assim com Fernando Meligeni, o "Fininho". Cria do país vizinho, ele se naturalizou e fez história como um dos maiores tenistas brasileiros. Osvaldo Meligeni, pai do ex-atleta, era fotógrafo e veio ao Brasil a trabalho. Ainda no aeroporto, o pequeno já se encantou com a nova vida. Hoje, Fininho não consegue ter um local preferido. "Não sei se são costumes, só que fui educado por uma família argentina e foi onde nasci. Por isso acho que tenho muitas características de lá e de cá", afirmou. Se seu coração é dividido entre os países, chegou um momento da carreira em que Meligeni precisou escolher. Depois de tantos resultados expressivos na infância, era necessário tomar uma complicada decisão. "Não foi fácil. A família queria que eu jogasse pela Argentina, mas respeitaram a escolha e entenderam minha vontade", conta. A opção rendeu frutos a ponto de ele ser indicado como um dos maiores tenistas brasileiros da era aberta. Vieram títulos diversos, além do reconhecimento do torcedor local. "Não penso muito em ser um dos melhores. Sou grato por tudo que fiz e mais ainda pelo carinho das pessoas." E foi com sua superstição de não pisar nas linhas e entrar em quadra com o pé direito que ele marcou época. Em 1995 veio a primeira taça de ATP simples, em Bastad, na Suécia. "Ali eu tive a certeza que era da elite do tênis mundial", conta. No ano seguinte ganhou em Pinehurst, nos Estados Unidos, e experimentou uma nova sensação. "Venci um mito na final (Mats Wilander), mostrando que eu podia chegar ainda mais longe", explicou Meligeni, antes de destacar o triunfo em Praga, na República Tcheca. "Esse me trouxe muita alegria. Três títulos de ATP não é uma coisa fácil de ganhar." Só que nem tudo foi felicidade na trajetória do ex-tenista. Em 1996, representou o Brasil nas Olimpíadas de Atlanta e acabou derrotado na semifinal pelo catalão Sergi Bruguera. Na disputa pela medalha de bronze, novo revés, desta vez para o indiano Leander Paes, de virada. Ainda assim, ele atingiu a melhor colocação de um brasileiro na história dos Jogos. "Acho que perder a medalha foi minha derrota mais dura. Sempre digo que foi a maior mistura de sentimentos que vivi. Uma alegria por chegar tão longe e muita tristeza por ficar tão perto. Para chegar, tive que vencer muitas coisas, inclusive o preconceito dos dirigentes por ser nascido na Argentina. Mas hoje sou grato pela experiência e até onde atingi", revela. Após tantos feitos, a hora de se aposentar ficava cada vez mais próxima. O ano era 2003 e Fininho foi para a decisão dos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo contra o chileno Marcelo Rios, naquela que foi sua despedida. Melhor para o brasileiro, que venceu por 2 sets a 1. "Foi uma delícia acabar a carreira assim. Não foi minha melhor partida, mas sim a mais emocionante, maluca e dramática. No final foi um jogo que mostrou quem eu fui dentro de quadra: um cara que jamais desistia." Parceria com o gigante Guga traz boas lembranças Quando se fala em tênis, o nome de Gustavo Kuerten é outro lembrado constantemente. Atuando na mesma época, Meligeni conviveu bastante com o ex-atleta, tanto enfrentando como adversário, quanto jogando ao seu lado como dupla. Em 1999, por exemplo, eles se encontraram nas oitavas de final do ATP de Monte Carlo e Guga levou a melhor por 2 sets a 0, com parciais de 6/2 e 7/6. Para Fininho, não há dúvidas sobre de que lado da rede era preferível ver o companheiro de profissão. "Guga foi gigante. Era complicado enfrentar caras como ele, sem dúvida nenhuma era melhor tê-lo ao meu lado." Já como dupla, os então tenistas fizeram diversos torneios juntos entre o fim dos anos 90 e o início de 2000, e comemoram as conquistas de cinco taças de ATP. Em 1996 bateram Dinu Pescariu e Albert Portas. No ano seguinte venceram Andrea Gaudenzi e Filippo Messori. Ainda em 1997 superaram Donald Johnson e Francisco Montana, além de Dave Randall e Jack Waite. Por fim, em 1998 levaram a melhor contra Daniel Orsanic e Cyril Suk. "Fora das quadras tínhamos um relacionamento muito legal. Gostávamos de curtir e rir. Ele foi um grande parceiro", destacou. Com a bola em jogo, quando Meligeni errava um lance simples, Guga mantinha seu bom humor característico, evitando dar broncas no parceiro. "Ele gostava de me cutucar. Quando eu errava uma devolução de saque, ele cantava a música 'Under The Bridge', do Red Hot Chilli Peppers. Essa foi uma das tantas brincadeiras que fez comigo", revelou Fininho, destacando a melodia que em determinado trecho diz: “Tem horas que eu sinto que eu não tenho um parceiro”. DICAS Não tem segredo. Para chegar longe é preciso trabalhar duro. É necessário acreditar e amar o que faz. A família tem que acreditar também. O resto vira história para contar.

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