Não acredito que nos dias de hoje “preciso” seja o verbo e o tempo de conjugação que determine o consumo. Lembro-me de quando comprar alguma coisa era precedido pela palavra: preciso. Os sapatos, por exemplo, que tínhamos um ou quando muito dois pares eram usados pelo tempo que o couro resistisse as trocas de meias solas e saltos. O Pedro, grande sapateiro da Rua Santos Dumont, com os óculos despencando do nariz, avental de “brim-caqui” e o pé de ferro (palavra em desuso na língua portuguesa) apoiado sobre as pernas, restaurava nossos sapatos quantas vezes o couro aguentasse. Às vezes com pesar ouvíamos dele a frase: “esse não dá mais meia sola!” Com as roupas se fazia coisa semelhante. Havia “naquele tempo” uma profissional especialista em cerzir. Alguém se lembra do verbo cerzir? Ou será que os mais jovens nem conheçam tal vocábulo? Felizmente ele ainda existe no corretor de textos do computador, pois tive duvida sobre a sua redação correta.
Nos dias atuais o que determina a compra de alguma coisa é ver, gostar e ter o dinheiro ou no saldo no cartão de credito. Você compra mesmo sem precisar. O objeto de desejo é o ultimo modelo de sapato ou de calças, que o ator x ou a atriz y usaram para a foto da revista, no capítulo da novela ou que alguém da moda definiu como a “tendência da próxima estação”. Até os gatunos se recusam a roubar modelos de celulares ou de tênis que não tenham as ultimas novidades tecnológicas. Chegamos ao cúmulo de descobrirmos quadrilhas que especialistas em roubar uma marca especifica de relógio.
A necessidade de possuir esses objetos de desejo muda comportamento. Já houve tempo, e não muito distante que as diferenças sociais e principalmente econômicas não eram tão visíveis como hoje. Não tenho registrado em minha memória na infância, grandes diferenças entre ricos e pobres. No máximo alguém tinha um carro, que hoje já não faz diferença, ou frequentava um clube que nem todos tinham dinheiro para comprar um titulo de sócio proprietário.
Penso que um dos fatores que contribuiu para as diferenças tornarem-se tão visíveis foram os meios de comunicação, em especial a televisão. A televisão escancara as diferenças sociais, estimula a inveja e a vontade de possuir coisas, às vezes desnecessárias. Tendo certeza que estou sendo simplista, acredito que contribuiu para o aumento da criminalidade. O contato com essas diferenças e o valor que é dado a esses bens de consumo torna um grande sofrimento viver na ausência do objeto dos sonhos.
O primeiro canal de televisão surgiu em Ribeirão Preto em meados da década de 50. Foi a televisão Tupy. Seu estúdio situava-se na Rua São Sebastião, no terceiro andar do Edifício Bradesco. Ali tivemos os primeiros programas gerados na cidade e creio que Silveira Lima tenha sido um dos primeiros vendedores de sonhos de consumo pela TV em nossa cidade. Seu programa “Mercantil da Sorte” aguçava a vontade de ter objetos às vezes desnecessários.
A própria TV tornou-se o primeiro objeto de desejo. Era colocada em lugar de destaque na sala de visitas. No início, em banco e preto com terríveis botões para ajustes de imagem na vertical e horizontal e mudanças de canais (existiam dois!) em um seletor manual. Com as variações de voltagem a imagem rodava ora no sentido vertical, ora no sentido horizontal. Era um senta e levanta infindável. Alguém poderá argumentar que o cinema já nos havia colocado em contato com esses objetos de consumo, mas eu não creio, pois a distancia do cinema para nossas vidas era tão grande que ele não estimulava essas paixões consumistas. Era coisa da Europa ou dos Estados Unidos. Os filmes nacionais, muito mais próximos de nossa realidade, como os do Mazzaropi ou as chanchadas da Atlântida com o Ankito, o Grande Otelo, o Oscarito e outros, não escancaravam as diferenças socioeconômicas como o fazem hoje as novelas.
Vivemos uma época que as nossas necessidades não são determinadas pelos estímulos internos. Os estímulos ou necessidades determinadas são criadas e estimuladas por fatores externos. Você já se perguntou se está com fome quando está comendo? O que você sente em seu corpo quando você tem fome? Consegue localizar em seu corpo o estímulo interno que o levou a comer? Ou será que o estímulo para se alimentar é o mesmo que você tem para comprar um sapato, um tênis ou um objeto qualquer?
Infelizmente o planeta tornou-se um imenso shopping. As pessoas são avaliadas, e se auto avaliam, pelos bens materiais que possuem ou que exibem.