CENTRO

Flanelinhas cobram o dobro da Zona Azul em Campinas

Em um só dia, reportagem do Correio Popular encontrou pelo menos nove pessoas que "lotearam" quarteirões para poderem faturar livremente com a venda irregular de vagas

Gustavo Abdel
19/05/2015 às 05:00.
Atualizado em 23/04/2022 às 13:19
Duplas "dona" de um determinado quarteirão não invade a área de outras duplas, e vice-versa (Gustavo Abdel/ AAN)

Duplas "dona" de um determinado quarteirão não invade a área de outras duplas, e vice-versa (Gustavo Abdel/ AAN)

A livre atuação dos flanelinhas que cobram valores até duas vezes acima do estipulado pela Zona Azul está disseminada por todo o Centro de Campinas. Na segunda-feira (11), a reportagem do Correio Popular encontrou pelo menos nove pessoas que "lotearam" quarteirões para poderem faturar livremente com a venda irregular de vagas e talões de estacionamento. Em um dos casos o flanelinha, que disse atuar há 17 anos no mesmo ponto da Rua Dr. Costa Aguiar, carrega consigo um molho com mais de 10 chaves de motoristas que lhe confiam os carros, e assim ele garante colocar o bilhete oficial assim que os agentes da Emdec (Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas) aparecerem. Já na Rua Dr. Thomaz Alves, os três rapazes que foram detidos em ação da Polícia Civil por venda irregular de vagas na última sexta-feira, após reportagem do Correio, estavam de volta nos mesmos pontos de atuação.O primeiro flagrante de venda ilegal de Zona Azul ao valor de R$ 5,00 a hora (o valor oficial é de R$ 3,20) foi revelado na esquina das ruas Cônego Cipião com a Barão de Jaguará. Instalada em uma mesa e cadeira na calçada, a flanelinha que se apresenta como "Baiana da Zona Azul" disse que era para deixar o vidro do motorista entreaberto que ela colocaria o cartão caso a Emdec aparecesse na rua. "Estou aqui há 18 anos e domino a área. São R$ 5,00, mas tem que deixar o vidro um pouco aberto", orientou. Por mês, Baiana cobra R$ 20,00 para "garantir" uma vaga diária na Cônego Cipião.Próximo a Baiana, na Praça Anita Garibaldi - em frente ao hospital Casa de Saúde -, outro flanelinha, que não quis dizer o nome, também tira dos motoristas R$ 5,00. "Ninguém quer ganhara R$ 0,20 (nos pontos autorizados). Eu pelo menos ganho R$ 1,80 e ainda olho os carros" , disse o rapaz, que em dezembro do ano passado já havia sido denunciado pelo Correio. O bilhete, inclusive, é riscado o valor de R$ 3,20 e colocado o preço de R$ 5,00.Em toda a extensão da Rua Dr. Costa Aguiar concentra-se o maior exemplo de falta de fiscalização e conivência dos motoristas. Nos cinco quarteirões que repartem a via existem sete pessoas identificadas pela reportagem que comercializam a Zona Azul acima do valor real. Pela manhã, na esquina da Costa Aguiar com a Rua Visconde do Rio Branco um dos flanelinhas ensinava um colega que estava começando na "profissão". Ambos abordaram juntos um motorista e o mais experiente ofereceu o bilhete a R$ 5,00. "Senhor, pode deixar mais de uma hora se quiser, por que aqui passa pouco amarelinho". O motorista comprou, colocou no painel e quando deixou o local o rapaz disse para o "aprendiz". "Tem que oferecer desse jeito, beleza?", ensinou. As duplas "dona" de um determinado quarteirão não invade a área de outras duplas, e vice-versa. PerninhaEntre a Rua Onze de Agosto até a Saldanha Marinho, ainda percorrendo pela Costa Aguiar, o quarteirão "pertence" ao "Perninha da Zona Azul" . Um senhor de aproximadamente 50 anos e deficiente físico que disse estar há 17 anos no mesmo ponto. Ele carrega um molho de chaves dos veículos de "clientes" que lhe confiam tal responsabilidade. Na segunda, quando uma dupla de agentes da Emdec apareceu na área Perninha começou a destravar os carros e a colocar Zona Azul no painel.O esquema é semelhante ao revelado na última sexta-feira, praticado na Rua Dr. Thomaz Alves. Independentemente do cartão da Zona Azul estar no painel ou não, o motorista tem uma taxa fixa em R$ 5,00 que é paga ao Perninha, que também aceita "um agrado extra". Sem qualquer problema o flanelinha mostra com orgulho o tanto de chaves que carrega nas mãos, e ao lado dos agentes da Emdec não esboça qualquer preocupação. Um dos agentes informou à reportagem que naquela quadra não conseguiu autuar os veículos sem o cartão de Zona Azul, mas que havia conseguido um veículo na quadra debaixo, em que não deu tempo para que outra dupla de flanelinhas colocasse o bilhete.Em resposta oficial, a Emdec segue afirmando que a fiscalização da atuação de flanelinhas é de responsabilidade dos órgãos de segurança pública do município. "A Emdec esclarece também que o motorista que se sentir lesado pode fazer a denúncia aos órgãos competentes" , divulgou em nota.Trio detido Mesmo após a detenção realizada pela Polícia Civil na tarde da última sexta-feira, o trio de flanelinhas que tomam conta da Rua Dr. Thomaz Alves, continuava atuando na manhã de ontem. Dois deles continuavam vendendo o bilhete de Zona Azul e um terceiro, que "alugava" as vagas públicas para motos também seguia trabalhando normalmente.O flagrante ocorreu por volta das 15h de sexta-feira, quando o delegado-titular do 1º Distrito Policial (DP) de Campinas, José Carlos Fernandes se passou por cliente e um dos rapazes lhe ofereceu estacionamento a R$ 5,00. Imediatamente foi detido com os demais colegas e encaminhados para o DR, onde assinaram um termo de compromisso por estarem exercendo atividade ilegal e foram liberados.Na segunda, a dupla que "loteou" a quadra da Avenida Anchieta até a Rua Luzitana não estavam utilizando os bancos que usavam para "guardar" vagas para os clientes. Já o rapaz que cobrava mensalidade de motociclistas na quadra de cima não utilizava o colete refletor que o identificava como flanelinha, mas seguia mexendo nas motos, para abrir espaço e garantir mais veículos nas vagas.O delegado-titula garantiu que a ação de sexta-feira foi a primeira de uma série que visa coibir a prática que lesa o bolso do cidadão.

Assuntos Relacionados
Compartilhar
Correio Popular© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por