Memória

Lágrimas de Luz

Rogério Verzignasse
31/08/2018 às 15:34.
Atualizado em 22/04/2022 às 13:04
Hercules Florence: nascido na França, veio para o Brasil com 16 anos e morou por 40 anos em Campinas  (Reprodução)

Hercules Florence: nascido na França, veio para o Brasil com 16 anos e morou por 40 anos em Campinas (Reprodução)

Todo campineiro aficionado por história sabe que um cidadão da terra, Hércules Florence, desenvolveu lá em 1832 um invento que permitia a impressão de imagens a partir da luz solar. Nascia a fotografia. Mas, morando na América do Sul, na época ele não foi reconhecido mundialmente pelo feito. E se revoltou demais.  Coube a uma tataraneta residente em São Paulo, a artista plástica Adriana Florence, decobrir – e divulgar – um depoimento emocionado do inventor, dizendo que suas pesquisas foram desprezadas por brasileiros que, no poder, eram dominados por especulações e políticas. Ele tinha certeza que, morando na Europa, ele seria tratado de outra forma. A artista – descendente e orgulhosa – fez questão de mergulhar em pesquisas pessoais e arrecadar documentos para fazer justiça ao ancestral famoso. Ela passou oito anos vasculhando diários e documentos. Fez telas, livros e documentários ilustrando a carreira de Hércules Florence. Os filmes chegaram a ser exibidos pela BBC de Londres e pelo Discovery Chanel. Para Adriana, dona de um estúdio na Capital, ao frustração do inventor se repete dia após dia, na história. “Artistas, inventores, cientistas, professores, pesquisadores… Pessoas pensantes, com projetos e sonhos, levam anos para ser reconhecidas. Foi assim com o Hércules Florence. A comunidade científica demorou 200 anos para reconhecer sua contribuição na invenção da fotografia”, diz. “Mas o público reconhece sim os talentos, apesar dos oportunistas de plantão, dos medíocres, dos ladrões de ideias e créditos.” O gênio Francês de Nice, Antoine Hercules Romuald Florence, aos 16 anos pegou carona em um navio que estava no porto e chegou ao Brasil. Em 1824, ele se empregou em uma tipografia de um francês amigo da família. Vendo um anúncio num jornal que procurava um desenhista para um trabalho científico, ele se apresentou ao Barão Georg Heirich von Langsdorff, naturalista alemão que faria uma grande viagem pelo interior do Brasil. Entre 1825 e 1829, Florence e participou da expedição ao lado de feras como Rugendas e Taunay. E deixou aquarelas que traçavam imagens belíssimas da flora e da fauna. De volta da viagem, ele se casou e fixou residência na então Vila de São Carlos por mais de 40 anos. Dedicou seus dias e esforços a pesquisa sobre a impressão com luz solar e uma série de outras invenções. Em 1830, diante da necessidade de uma oficina impressora, inventou seu próprio meio de impressão, a Polygraphie, como chamou. Seguindo a meta de um sistema de reprodução, pesquisou a possibilidade de se reproduzir imagens pela luz do sol e descobriu um processo que chamou de Photographie. Em 1833, Florence fotografou através da câmera escura com uma chapa de vidro e usou um papel sensibilizado para a impressão por contato. Sem conhecimento do que realizavam seus contemporâneos europeus (Niépce, Daguerre e Talbot), Florence obteve o primeiro resultado fotográfico, apesar de anônimo e distante da efervescência cultural e científica da Europa. Em 1839, sete anos depois de sua descoberta, Hercules Florence soube que seu conterrâneo Daguerre havia criado o processo de reprodução que se chamou daguerreotipia, e chegava primeiro ao reconhecimento público. Hércules ficou desolado e desistiu de aperfeiçoar seu invento. O DEPOIMENTO "Inventei a fotografia. Fixei as imagens na câmara escura. Inventei a poligraphia, a impressão simultânea de todas as cores, a prancha definitivamente carregada de tinta, os novos sinais estenográficos. Concebi uma máquina que me parecia infalível, cujo movimento seria independente de um agente qualquer e cuja força teria alguma importância. Comecei a fazer uma coleção de estudos de céus, com novas observações, muitas, aliás, e meus descobrimentos estão comigo, sepultados na sombra. Meus talentos, minhas vigílias, meus pesares, minhas privações são estéreis para os outros. Não me socorrem as artes peculiares às grandes cidades, para desenvolver e aperfeiçoar alguns de meus descobrimentos, para que eu me cientificasse da exatidão de algumas de minhas idéias. Estou certo de que, se estivesse em Paris, um único de meus descobrimentos poderia, talvez, suavizar-me a sorte, ser útil a sociedade. Lá, talvez, não me faltassem pessoas que me ouviriam, me adivinhariam e me protegeriam. Estou certo de que o público, o verdadeiro protetor dos talentos, me compensaria de meus sacrifícios. Aqui, porém, ninguém vejo a quem possa comunicar minhas ideias. Os em condições de as entenderem, seriam dominados por suas próprias ideias, por suas especulações, pela política..." SAIBA MAIS O acesso ao documentário sobre a trajetória de Hércules Florence pode ser feito por meio do e-mail [email protected]  

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