Muitos políticos ainda não se recuperaram do impacto que a mobilização da sociedade proporcionou no mês de junho, em inesperada manifestação de protesto generalizado que eclodiu de forma espontânea e massiva, movida apenas pelo estopim de uma iniciativa contra as tarifas de transporte coletivo, que teria passado desapercebida não fosse a inclusão de outros temas contundentes. O protesto calou fundo na alma dos brasileiros, que num repente uniram as forças e a coragem para dar um grito de basta à sem-vergonhice visível no meio político.Tal foi a surpresa que, de início, poucos realmente se deram conta do alcance e da importância histórica dos eventos que se espalharam praticamente por todo o País. Os políticos eram o alvo preferencial e se mostraram atordoados e sem respostas, muitos com medo de enfrentar a turba mobilizada. As poucas tentativas de capitalizar a insatisfação se voltaram contra os oportunistas, convencendo que a melhor estratégia seria se recolher e encontrar o tempo certo para oferecer respostas.O resultado inicial foi, de certa forma, previsível. As pesquisas de opinião pública mostraram que a popularidade capitalizada pelos detentores do poder durante anos simplesmente ruiu, aguçando o senso crítico dos cidadãos e estabelecendo um novo padrão de avaliação. A presidente Dilma Rousseff, no topo da pirâmide, experimentou a alternância da aceitação plena e o questionamento aberto de suas ideias — o resultado foi a derrocada contínua de sua aprovação, num verdadeiro mergulho a índices inimagináveis.A realização da Copa das Confederações e a visita do papa Francisco ao Brasil proporcionaram um interregno providencial nas manifestações e sua exposição na mídia. As tentativas de mostrar uma possibilidade de mudança estacionaram na intenção de um mal explicado plebiscito que abriu uma crise institucional com o Congresso, em votações apressadas, choques de interesses e exposições que somente agravaram rejeições.Agora, começa o segundo tempo e a expectativa é ainda maior. Os atos violentos que persistem no Rio de Janeiro não são consideráveis, pois se tratam de problema localizado e da esfera criminal. Não se pode prever a volta das manifestações de rua.O governo, atônito, não tem mais nada a oferecer a não ser repetir o discurso apaziguador. Resta saber se os governantes conseguirão assimilar o golpe e estabelecer uma nova cartilha política com as lições inscritas nos muros, cartazes e no asfalto das ruas.