ENTREVISTA

Loira que faz bem

Inspirado em estudo espanhol, grupo pesquisa e espera comprovar que o consumo moderado de cerveja pode ser benéfico ao coração

Karina Fusco
24/06/2013 às 16:35.
Atualizado em 25/04/2022 às 11:03

Assim como o vinho, será que a cerveja pode ter um efeito protetor dos vasos sanguíneos, evitando problemas como a aterosclerose, que é o entupimento das veias, e o enfarte? Seguindo os passos de estudos internacionais, uma equipe de cardiologistas, nutricionistas e psiquiatras brasileiros conduzirá uma pesquisa inédita sobre o tema no País, o terceiro maior consumidor mundial da bebida, atrás apenas da China e dos Estados Unidos.

O estudo será feito por meio de uma parceria entre a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e o Hospital do Coração (HCor), de São Paulo, e deverá começar a apresentar resultados daqui a um ano. Durante os trabalhos, serão acompanhados dois grupos de voluntários: um de abstêmios e outro de pessoas que bebem cerveja regularmente. Ao final, pretende-se conhecer melhor os possíveis benefícios da bebida para o coração.

Segundo o diretor da SBC e médico do Sport Check-up do HCor, Nabil Ghorayeb, a pesquisa deve seguir a mesma linha de um estudo espanhol, cujos resultados foram apresentados pela médica Lina Badimón, do Centro de Pesquisa Cardiovascular de Barcelona, no 34o Congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), realizado na capital paulista no dia 1o de junho. “Ninguém está fazendo apologia ao alcoolismo. Só queremos estudar os benefícios e os prejuízos da bebida mais consumida no Brasil”, enfatiza.

À Metrópole, o especialista falou sobre o interesse que o tema vem despertando nos brasileiros — inclusive na comunidade médica —, sobre a necessidade de definir previamente a estrutura do estudo e sobre como eleger um ou mais tipos fabricados por aqui que serão alvos da investigação, além da expectativa para conhecer um pouco mais sobre a bebida que é preferência nacional.

Metrópole - Como será conduzida a pesquisa brasileira?

Nabil Ghorayeb – A partir da apresentação da pesquisa da médica Lina Badimón no Congresso de Cardiologia, fizemos um simpósio para saber se valeria a pena realizar estudo semelhante aqui no Brasil e decidimos que sim, afinal, é a bebida mais consumida no País e temos que entender o que está acontecendo com quem a ingere. Elegemos um comitê científico e ético que irá definir os detalhes do estudo, como, por exemplo, quantos pacientes serão acompanhados, quem serão os abstêmios, como serão conduzidos os trabalhos. Enfim, iremos montar toda a estrutura. Um ponto já definido é que contaremos apenas com brasileiros, nascidos e criados aqui para que a investigação seja a mais fiel possível à nossa realidade.

Fale-nos um pouco sobre o estudo europeu.

Eu assisti a uma conferência de Lina na Espanha, em um congresso organizado pelos Ministérios da Saúde e da Agricultura, sobre a influência de bebidas fermentadas, como vinho e cerveja, na dieta mediterrânea. E sugeri convidá-la para nosso congresso em São Paulo. A pesquisa dela mostrou que quem bebe cerveja moderadamente, o que significa 350 mililitros (o equivalente a uma lata) para mulheres e 700 mililitros (duas latinhas) para os homens, acompanhando uma refeição, obtém um efeito protetor dos vasos sanguíneos. Quando foram aumentadas ou reduzidas as quantidades, houve diferença para pior no resultado.

Como foi a repercussão da apresentação da pesquisa espanhola no congresso em São Paulo?

A melhor possível. A sala de 600 lugares estava lotada e cerca de 98% do público era de médicos. Isso mostra o grande interesse que o assunto despertou, inclusive por questões pessoais. Uma das perguntas mais frequentes, que ela afirmou receber em todo lugar, foi sobre a barriga de quem consome cerveja. Lina respondeu que ela é resultado do que se come junto enquanto bebe cerveja. Se pararmos para pensar é verdade que a maioria dos itens que acompanha a cerveja são muito calóricos. A médica informou também que o chope tem o dobro de calorias da cerveja e que o vinho tem mais álcool do que ela.

O que motiva a realização desta pesquisa no Brasil?

É a bebida mais consumida no País, este é o terceiro maior consumidor mundial dela, atrás apenas da China e dos Estados Unidos. Além disso, recentemente, tivemos a liberação da venda de cerveja nos estádios durante a Copa das Confederações, cujos jogos estão sendo disputados, e a Copa do Mundo de Futebol, no ano que vem. E, pelo grande interesse que o tema despertou, demos a largada para entender melhor um assunto que nunca havia sido debatido por aqui. A equipe de pesquisadores será composta por cardiologistas, nutricionistas e psiquiatras. Esses últimos, inclusive, são os que atuam no combate ao alcoolismo.

Serão considerados diferentes tipos da bebida?

Provavelmente não. Ainda definiremos essa questão e acredito que escolheremos o padrão da cerveja brasileira que será usado no estudo. Pode ser, por exemplo, a pilsen, a mais consumida. No estudo espanhol foi considerada também a cerveja sem álcool, que por lá tem o gosto muito parecido com a alcoólica, e foi identificado que ela também proporciona benefícios ao coração.

A pesquisa da cerveja deve ser semelhante ao estudo que vocês já fazem com o vinho?

Sim, já temos a parceria estabelecida entre o Hcor, o Instituto do Coração (Incor) e a SBC e estudamos os efeitos do vinho para o coração há quatro anos. Temos visto os benefícios de seu consumo moderado, o que significa uma ou duas taças por dia. Agora vamos abrir um braço para estudar outra bebida fermentada, a cerveja, e mais uma vez contar com o respaldo científico da SBC. Pelos resultados da Espanha, deu para perceber que existe um paralelo muito semelhante ao observado no vinho. Mas, em vez de focar na questão alcoólica, deveremos entender melhor os efeitos do suco de cevada, centeio e levedura e seus possíveis efeitos antioxidantes. Vale lembrar que seu consumo é histórico. Existem relatos até no Antigo Testamento. 

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