JOSÉ ERNESTO

Marcelino pão e vinho

06/07/2013 às 00:00.
Atualizado em 25/04/2022 às 09:41

Você se lembra do filme “Marcelino pão e vinho”? Marcelino, interpretado por Pablito Calvo (Pablo Calvo Hidalgo, Madrid, 1948-2000) fez muita gente rir e chorar com as historias do pobre garoto abandonado e criado por frades de um convento. Mas não é bem isso que eu quero contar, muito menos historia de meninos abandonados pelos pais. A história é sobre coroinhas ou sacristãos, meninos bem cuidados e amados por suas famílias. Eram os coroinhas da década de 50 da Igreja Nossa Senhora do Rosário, da Vila Tibério.

Entre esses me incluía, juntamente com meu primo Pedro Ernesto e outros três ou quatro. Nesta época o padre celebrava a missa de costas para os fiéis e nós coroinhas, usando ás vezes paramento preto e branco, outras vezes de paramento vermelho e branco, respondíamos em latim aos chamados do padre, mudávamos a posição do missal, tocávamos o sininho para os fieis sentarem, levantarem ou ajoelharem-se. Outra atividade importantíssima ocorria pouco antes da consagração: dispensávamos o vinho e a água das galhetas para o cálice que seria abençoado. Além disso, na comunhão, acompanhávamos o padre, colocando a patena sob o queixo de quem recebia a hóstia consagrada. Lembro-me de dois pequenos objetos de linho, muito alvos com uma cruz bordada e engomados, o corporal que era usado para enxugar o cálice e a pala, pequeno pano também engomado, que cobria o cálice.

As hóstias que não eram distribuídas eram cuidadosamente colocadas na âmbula (cálice com tampa) e guardadas respeitosamente no sacrário. As hóstias depois de abençoadas não eram tocadas por outras mãos, que não a do padre. Tenho boas lembranças desse tempo. Os padres da Vila eram em sua maioria espanhóis, falavam com sotaque bem carregado, idosos e extremamente dedicados à paróquia e aos fiéis. Nós coroinhas, pertencíamos também à irmandade da Cruzada Eucarística. A Sra. Marcelina Redígulo, juntamente com Sra. Cecília Ferrioli, eram as responsáveis pela catequese e também pelo preparo de jovens para a primeira comunhão. Nossas reuniões semanais ocorriam às quartas feiras às 17h e a missa dos cruzados era aos Domingos às 8h. Antecedia-nos os Congregados Marianos e as Filhas de Maria que tinha suas missas às 5,30h e às 7h.

Tínhamos que às 18h acionar os sinos na torre da matriz. Depois de subir uma escada de madeira muito estreita, desviando de morcegos, colocávamos a quatro mãos um dos sinos em funcionamento. Era o sino que repicava, ou seja, o que dava voltas completas em seu eixo. Quando ele adquiria o impulso necessário, quase que se movendo pelo impulso inicial, o outro coroinha tocava o sino menor, mais grave que dava a melodia do Ângelus. Era o “dlim-dlim-dlim-dlim” do primeiro sino intercalado, pelo “dom”, grave do segundo. Outro sino que acionávamos era o das missas de sétimo dia.

Essas tinham um ritual especial, pois montávamos no centro da nave uma serie de caixas roxas que simulavam um tumulo. Em determinado momento da missa, o celebrante circulava espalhando os fluidos do incenso em torno daquele tumulo simbólico.

O coroinha que aspergia água no turíbulo para fluir a fumaça perfumada simbolizando as preces e orações a Deus. Nesse momento outro sacristão acionava com uma corda que pendia da torre até a entrada da igreja. Era somente alguns toques graves comunicando o fato a comunidade. Acionar a matraca na Semana Santa era outra atividade muito disputada pelos sacristãos.

Outra função que os coroinhas exerciam era o engarrafamento semestral do vinho para a missa. Explico. O vinho usado nas missas não era comprado em litros ou garrafas, mas em barris de cerca de 100 litros e nós éramos responsáveis, uma ou duas vezes ao ano, por dispensá-los em garrafas. Era um vinho licoroso produzido em São Roque. Começávamos nosso trabalho instalando uma torneira no tonel. Paralelamente fervíamos as rolhas (somente assim elas entravam na “boca” da garrafa) e derretíamos uma porção de parafina em um vasilhame usando um pequeno fogareiro. Formávamos então uma linha de montagem: um enchia o litro, o outro colocava a rolha e o outro selava a garrafa com parafina. Utilizamos muitas manhãs das férias escolares nesta tarefa de vinicultor amador.

É claro que entre a colocação de uma garrafa e outra na “boca da torneira”, sempre gotejava alguns mililitros de vinho, que eram recolhidos em um copo. Como eles não podiam ser desperdiçados (que pecado!) eram utilizados para pequenas e inocentes degustações dos Marcelinos, Pedros e Josés. Pecadinho venial que os Padres Leopoldo, Martinho, Marino e Matheus nunca souberam. Muito menos nossos pais.

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