em bangladesh

'Quem é o Papa?', questionam os rohingyas

Dos quase 900 mil muçulmanos rohingyas de Mianmar que encontraram abrigo no vizinho Bangladesh, apenas um punhado já ouviu falar do chefe da Igreja Católica

France Presse
29/11/2017 às 11:28.
Atualizado em 23/04/2022 às 04:24
'Quem é o Papa?', questionam os rohingyas (Divulgação)

'Quem é o Papa?', questionam os rohingyas (Divulgação)

O êxodo desse grupo muçulmano é o motivo maior da delicada visita do papa Francisco a Mianmar e a Bangladesh, mas, nos acampamentos onde os rohingyas se abrigam no sul bengali, os refugiados muçulmanos se perguntam: "mas quem é o Papa?". Dos quase 900 mil muçulmanos rohingyas de Mianmar que encontraram abrigo no vizinho Bangladesh, apenas um punhado já ouviu falar do chefe da Igreja Católica. Quando a AFP mostra uma foto do jesuíta de 80 anos, as hipóteses emergem: um rei rico, um astro americano, um político de Bangladesh, ou um líder muçulmano. "Acho que já o vi na imprensa, mas o que ele faz? É importante?", pergunta Nurul Qadar, de 42 anos, que faz parte da maré humana de mais de 620 mil pessoas que fugiram desde o final de agosto da violência em Mianmar, qualificada pela ONU de limpeza étnica. Considerados estrangeiros em um país onde 90% da população é budista, os rohingyas são marginalizados e têm acesso limitado ao sistema escolar. Vivendo em uma sociedade pobre e rural, onde o universo é muitas vezes limitado à aldeia e a seus arredores, seus meios de abertura para o mundo são reduzidos. Sem educação, muitos deles são analfabetos. Imã rohingya no grande campo de deslocados de Kutupalong, Hassan Arraf é uma das poucas pessoas entrevistadas pela AFP a conhecer o papa. Referindo-se a sua reputação de homem próximo ao povo, ele espera que a aura do pontífice possa mudar suas vidas. "O modo como (os birmaneses) nos torturam, nenhuma religião no mundo permite. Ele é um grande líder de outra religião, mas acredito que seja um homem sábio", diz à AFP. "Acho que ele será capaz de entender o que estamos passando. E poderá pedir ao governo de Mianmar para resolver essa questão e pacificar a região", acrescentou. 'Símbolo de reconciliação' Nos últimos meses, o papa falou sobre a situação dos rohingyas, "torturados e mortos por causa de suas tradições e fé". Mas em seu primeiro discurso oficial em, Mianmar na terça-feira, o argentino evitou pronunciar a palavra "rohingya", tabu nesse território agitado pelo nacionalismo. Sua agenda em Bangladesh - de quinta-feira até sábado - não inclui deslocamento para os grandes acampamentos de refugiados no extremo sul do país, perto da fronteira com Mianmar. Uma ausência que muitos refugiados lamentam. "Se sua visita é sobre nós, ele deveria ter vindo aqui para nos encontrar e conversar. Deveria ver como vivemos, como mal sobrevivemos", disse Hami Tusang, em uma fila à espera da distribuição de alimentos no campo de Balukhali. O homem logo atrás, Azim Ullah, diz que lamenta que o papa não possa testemunhar o sofrimento dos rohingyas. "Sendo um líder tão poderoso, ele deveria ver o que passamos. Todas as coisas horríveis que possam vir à sua cabeça, nós já experimentamos", desabafou, imitando um gesto de degola. "Ele deveria ser nosso porta-voz. Deveria exigir os nossos direitos, a nossa cidadania (em Mianmar). Caso contrário, tais visitas são inúteis", considerou. Durante sua viagem, primeira visita de um papa a Bangladesh desde 1986, o pontífice se reunirá na sexta-feira em Dhaka com uma pequena delegação de refugiados rohingyas. "Ele vem como um espírito e um símbolo de reconciliação", disse à AFP James Gomes, diretor regional da Caritas, entidade humanitária da Igreja Católica. "Esperamos que sua visita tenha um impacto muito positivo e crie uma boa solução entre os dois países", completou.

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