MAURÍCIO FALLEIROS

Não casa

12/08/2013 às 01:12.
Atualizado em 25/04/2022 às 05:45

A campainha tocou. Só podia ser ela. Christopher atendeu a porta e lá estava Lucinete, uma solteirona que ele conhecia do escritório, e que estava flertando com ele.O anfitrião pediu para que a moça entrasse e se acomodasse, enquanto ele iria pegar uma bebida para os dois. Ela pediu para ir junto. Já no bar, ele separava uma garrafa de vinho – de uma ótima safra, para impressionar –, quando ela disse:– Não tem uma cerveja, não? Surpreso, Christopher respondeu:– Ter, até tem. Mas quero que hoje à noite seja especial... – E precisa de vinho pra isso? – Precisar, não precisa. Mas um vinho deixa tudo melhor. – Ainda prefiro uma cerveja. – Esse vinho vai mudar sua opinião. – Tenho minhas dúvidas... – Esse vai. É uma garrafa rara, de uma safra especial. – Acho que ainda prefiro uma cerveja, da comunzinha mesmo... – Você vai mesmo deixar de experimentar um vinho escolhido a dedo, que eu selecionei exclusivamente para hoje? – Ok, ok... Se você insiste tanto, vamos de vinho, então... – Ótimo! Christopher abriu a garrafa e serviu as taças. Os dois brindaram e começaram a beber. Lucinete puxou assunto – fazendo uma cara azeda, por causa do vinho:– E aí, separou algo pra gente beliscar? – Muito melhor! Preparei um jantar de primeira para nós. – Que homem prendado, hein? O que fez pra gente? – Uma coisa finíssima: lagosta! – Lagosta?! – É, lagosta. Vai me dizer que não gosta de lagosta? Ou... Meu Deus, você não é alérgica a lagosta, né?! – Não! Não sou alérgica. Aliás, sei lá se sou alérgica, eu nunca comi lagosta! Lagosta é coisa de gente fresca! – Fresca, não! É coisa de gente sofisticada. – Que quer dizer a mesma coisa que gente fresca. Inclusive, você bem que gosta de uma coisinha fresca, não? Vinho, lagosta... – Eu gosto de coisas sofisticadas, é diferente. E você vai passar a gostar também, começando pela minha lagosta! – Sei... – disse Lucinete, olhando para os lados, meio desconfortável. – Bem, enquanto o jantar não fica pronto, vamos dar uma voltinha? Quero que você conheça minhas esculturas... – Você tem esculturas em casa? – questionou a moça, com um ar sério. – Claro. Não quer conhecê-las? Lucinete não respondeu. Simplesmente virou a sua taça de vinho em um gole – fazendo uma cara azeda de novo –, agradeceu a bebida com um gesto e foi embora. Pra algum bar da cidade provavelmente, tomar uma cerveja.Arrasado, Christopher largou o vinho, pulou a lagosta e foi direto se acabar no petit gateau, assistindo algum filminho açucarado na TV.

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