Milhares estão reescrevendo a própria história em Campinas e número ainda pode aumentar
Milhares de pessoas estão reescrevendo a própria história em Campinas e esse número pode aumentar ainda mais. A Fundação Municipal para Educação Comunitária (Fumec) pretende reunir até o próximo mês de agosto 4 mil alunos em seu curso gratuito de alfabetização de pessoas com 15 anos de idade ou mais. E não há desculpas para não aprender. São 199 salas de Educação de Jovens e Adultos (EJA) espalhadas pelas cinco regiões da cidade nos mais diversos locais, como escolas, igrejas, creches e associações de moradores. Até alguns cemitérios têm espaços reservados para que funcionários e interessados aprendam a ler e a escrever. No Aeroporto Internacional de Viracopos, em fase de ampliação e com quatro mil empregados de diversas partes do Brasil envolvidos nisso, também existe a possibilidade da abertura de salas de aula em bairros no entorno para receber quem deseja ser alfabetizado.
O objetivo do trabalho da Fumec é tão ousado quanto nobre: chegar em 2016 com o menor índice de analfabetismo entre jovens, adultos e idosos do Brasil. Atualmente, a iniciativa conta com exatos 2.602 alunos inscritos. Todos recebem um kit escolar, uniforme e lanche.
Para ampliar essa rede de aprendizado, a instituição distribuiu cartazes e mais de sete mil questionários para identificar quem possa participar também. Todas as famílias que ganham cestas-básicas receberam a pesquisa. De acordo com levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) feito em 2010 entre os municípios com mais de um milhão de habitantes, Campinas ocupa a 5 colocação no índice de analfabetismo, com 2,63% entre o total da população (28,4 mil pessoas). A líder é a cidade de Curitiba (PR), que tem o menor percentual nacional — 1,88%. Para alcançar a Capital paranaense até 2016, teriam de ser alfabetizados 10 mil campineiros. “É um desafio muito grande, mas queremos alcançar essa meta, que é muito séria”, afirma a diretora-executiva da Fumec e do Centro de Educação Profissional de Campinas "Prefeito Antonio da Costa Santos" (Ceprocamp), Darci da Silva.
A posição de Campinas nesse ranking é considerada boa, mas precisa melhorar. “Cada comunidade pode nos ajudar a identificar as pessoas não alfabetizadas que vivem por perto. As turmas têm alunos de diferentes idades e múltiplos graus de aprendizado. Os resultados já podem ser vistos. Temos muitos exemplos de pessoas que fazem o curso e depois retornam para dizer que estão empregadas ou fazendo cursos técnicos”, aponta Darci.
As aulas ocorrem durante a semana e em todos os turnos do dia. Os horários dependem sempre da demanda dos alunos em cada local. Facilitar o acesso às aulas também é importante. “Temos que estar bem próximos da população não alfabetizada porque essas pessoas já trabalham o dia todo e, se oferecermos as aulas em locais mais centrais da cidade, elas não conseguem chegar. É a educação que tem que chegar perto da casa deles para que nós possamos convencê-los a participar do nosso curso”, explica Darci. A partir deste mês, os alunos que comprovadamente percorrem mais de dois quilômetros até o local das aulas ganharão passes de ônibus.
Regiões
As aulas começaram no último dia 6 de fevereiro. Normalmente, os adultos procuram mais os cursos do que os jovens, apesar de haver uma variedade etária nas salas de aula. Do total de alunos matriculados em 2013, até agora, os homens representam 36,4% e as mulheres são 63,6%.
Entre as regiões da cidade, a Noroeste (Campo Grande) é a que tem a menor participação até o momento: 351 alunos inscritos. Nos bairros ao Sul (como a região do Campo Belo, por exemplo), é onde está a maior participação: 744 alunos. Dentro das atividades para rechear ainda mais as salas de aula, a Fumec realizou recentemente um evento com vários pastores e padres de diversas regiões para que eles divulguem em suas comunidades a importância da alfabetização e o ganho que isso representa para todos quando a família inteira é alfabetizada. “A educação é importante não só para incluí-los socialmente, mas para que os alunos também possam galgar outros espaços. Eles podem concluir o EJA 1 (do 1 ao 5 ano do ensino fundamental) e depois passar para o EJA 2 (do 6º ao 9º ano), que é feito nas escolas, pela Secretaria Municipal da Educação. Depois disso, também é possível continuar se aprimorando com os cursos técnicos do Ceprocamp”, comenta a diretora.
O limite de tempo do curso é de três anos, mas isso não é algo fechado. Os professores realizam um diagnóstico, com conversas e aplicação de provas, com cada um dosalunos para saber em que nível de escolarização eles estão. “O aluno só sai quando estiver qualificado. Ele pode ficar dois meses ou três anos. Não expulsamos ninguém da sala de aula. Queremos fazer com que ele tenha, cada vez mais, qualidade para sair sabendo”, garante Darci.
Cemitério também é lugar para aprender
O fato de passar o dia todo convivendo com a dor e a tristeza dos outros não impede que a turma seja animada e participativa quando a aula começa. Há sete anos, uma parceria entre a Fumec e a Comunidade Religiosa Santa Rita de Cássia mantém uma turma de alunos adultos que passam por alfabetização e reforço escolar em uma sala do Cemitério Parque das Aléias, em Campinas. A oportunidade é dada a funcionários do local e a colegas dos cemitérios Parque Flamboyant e Parque das Acácias, no Jardim Von Zuben — que pertencem ao mesmo grupo —, e também à população vizinha que queira participar. Sepultadores, motoristas e auxiliares de limpeza mostram garra na hora de aprender mais. Como incentivo, o aprendizado desenvolvido nas aulas é um dos fatores levados em consideração no momento das promoções de cargos feitas pela chefia.
Tudo começou com o interesse da comunidade religiosa em implantar programas de qualidade na prestação de serviços. Com isso, não poderia mais haver funcionários analfabetos trabalhando ali. A parceria com a Fumec veio para resolver esse problema e, ao mesmo tempo, valorizar as pessoas. “A qualidade da mão de obra melhorou muito. Além disso, acaba não sendo apenas alfabetizar, mas também a oferta de uma espécie de alívio para o dia a dia deles”, afirma a psicóloga do grupo, Silvana Caetano.
Na turma de 14 alunos sobram exemplos de dedicação. O sepultador Leandro Ramos, de 33 anos, natural do Paraná, está há quatro meses aprendendo a entender melhor as letras. “Cheguei sabendo mais ou menos e já melhorei bastante”, diz ele, que acaba estudando com os quatro filhos. “Ajudo no que eu posso”, confirma, orgulhoso. A auxiliar de limpeza Cláudia Barreto, de 40, vinda da Bahia, diz saber mais ler do que escrever. Por isso, decidiu relembrar o que aprendeu na escola, principalmente a matemática, sua matéria favorita. Seus filhos apoiam a ideia e cobram quando ela falta. “Eles falam: ‘A senhora quer que a gente estude e não vai às aulas!’ Aí, eu vou”, conta a moradora do Jardim Itatiaia.
A servente Maria Naves e o supervisor Luiz Carlos dos Santos trabalham no Acácias e, de segunda à sexta, comparecem às aulas. Como estão mais distantes, eles utilizam um serviço de transporte oferecido pela empresa para levá-los ao Aléias. “A gente se sente respeitado. E também não tem desculpas para não assistir as aulas”, afirma Santos.
Animados
A professora com mais de 20 anos de experiência na Fumec, Izabel Moreira, dá as aulas para a turma do cemitério. “O que eu acho mais importante nessas pessoas é que elas trabalham com a tristeza dos outros todos os dias, mas não trazem isso para a sala. É uma turma bastante animada, onde um colabora com o outro”, aprova a educadora.