JOSÉ ERNESTO

O arroz com feijão nosso de cada dia

21/09/2013 às 00:00.
Atualizado em 25/04/2022 às 03:17

Pesquisa divulgada pelo IPEA nos mostrou que, em especial nos grandes centros urbanos, vem caindo o consumo de arroz e o feijão. Desde a década de 1970, o consumo de arroz caiu 46%. O do feijão, um pouco menos, 37%. Em recente estudo denominado ‘Vigilância de fatores de risco e proteção para doenças por inquérito telefônico’ (Vigitel) verificou-se que somente 60% dos adultos consomem feijão cinco ou mais vezes por semana e que as pessoas com mais anos de educação consomem menos que os que têm apenas o curso elementar. Parece até que feijão passou a ser alimento de pessoas menos educadas. Arroz e feijão eram básicos na nossa alimentação foram substituídos pelo consumo de alimentos industrializados que cresceu 217% entre 1974 e 2003. Perguntado inúmeras vezes sobre as qualidades nutricionais do arroz com feijão sempre citei os estudos conduzidos na década de 60 e 70 pelo Prof. Dutra de Oliveira e seu grupo na FMRP. Nestes eles mostraram a excelente qualidade nutricional da mistura. Esse fato foi confirmado por outros grupos e diversos artigos e livros descrevem a qualidade da mistura com muita propriedade.Gostaria, no entanto, de refletir sobre algo mais que o valor nutricional que o arroz/feijão representava na nossa alimentação. O arroz com feijão era o prato principal do brasileiro numa época que não se almoçava sanduíche e nem se jantava “disque alguma coisa” assistindo uma capitulo de novela, o telejornal feito de grandes tragédias ou um pouquinho mais moderno, cada um em seu quarto com sua televisão digital. A aparente facilidade que os novos hábitos alimentares trouxeram, em que a nova mulher deixou de ser somente dona de casa, modificou os hábitos alimentares e tornou a alimentação mais calórica e às vezes com menor valor nutricional.O preparo do arroz e do feijão fazia parte de um ritual que começava na noite anterior ao almoço com o que se chamava de “escolher feijão”. Essa tarefa competia geralmente ao mais jovem da casa. Fiz isso varias noites de minha infância. Colocava-se sobre a mesa a medida de feijão que seria preparado no dia seguinte no dia seguinte, uma pequena bacia sobre o colo e ia se retirando algumas impurezas ou os grãos mais estranhos que acompanhavam o feijão comprado no armazém de “secos e molhados” do “seu Zaul” ou na Casa Montans. O feijão era então colocado de “molho” em recipiente com água por toda a noite. No dia seguinte o feijão era cozido lentamente e depois temperado com óleo, cebola e alho e às vezes até um pedaço de “panceta”, que a Nona tinha dado de presente quando matou o ultimo porco criado no sitio. O aroma exalado por esse tempero invadia a casa aguçando nossa sensação de fome. Todos os alimentos eram preparados com a mesma dedicação e cuidado. Sentava-se então a mesa para almoçar (não se surpreendam, pois hoje muitos almoçam de pé na lanchonete mais próxima ou em casa em frente da TV). Tanto o almoço como o jantar eram momentos da família. Os filhos contavam aos pais o que acontecera escola, nos brinquedos (às vezes até saiam algumas rusgas, sempre controladas pela voz ou um simples olhar do pai). Em outras palavras a refeição tinha além do valor nutricional dos alimentos, os valores afetivos, tecidos nos momentos em que a família se reunia. O preparo das refeições era uma parte importante da atividade da família e o seu consumo um ato puro e conjunto. Com muita frequência alimentar-se hoje é somente um ato de “encher a barriga”, sem se tirar dos alimentos o prazer que eles merecem.Creio que, pelo menos em parte, as mudanças nos hábitos alimentares da nossa sociedade sejam responsáveis pelo aumento de peso e pelo aumento na prevalência das doenças crônicas como obesidade, hipertensão e diabetes nas populações dos grandes centros urbanos.* A Dona Wilma A. G. dos Santos, minha mãe, que sempre fez de nossas refeições um ato de prazer e cuidou para que não comêssemos “feijão amanhecido”.

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