CARLO CARCANI

O esquema do Brasil

Carlo Carcani
18/06/2013 às 22:57.
Atualizado em 25/04/2022 às 18:58

Escolha um país desenvolvido, que seja produtivo e ofereça serviços públicos de qualidade a sua população. Que invista em educação, saúde e segurança. Que seja um bom lugar para se viver não apenas porque é relativamente bem governado, mas também porque tem habitantes que se respeitam em pequenas atitudes do dia a dia. Pense um país que tenha algumas dessas características e você encontrará um país com esporte forte. Com ídolos, com boas quadras, piscinas, pistas, ginásios e estádios. Não apenas para as grandes estrelas, mas também para crianças e jovens.

A Copa do Mundo é o evento esportivo mais importante do planeta. Emociona e envolve um número incontável de pessoas, de todas as idades, credos e costumes. Organizar uma Copa não é problema. Problema, no nosso caso, é o esquema do Brasil.

A Copa de 2014 poderia ser a "melhor de todos os tempos", como pregam nossos governantes, se fosse realizada no máximo em oito estádios. Mas escolhemos 12, para atender interesses políticos e gastar mais. E não investimos em infraestrutura. Perdemos a chance. E venceu o esquema do Brasil.

Construímos arenas caríssimas onde não há futebol. Caríssimas porque as obras foram superfaturadas, dentro do que prevê o nosso velho esquema. Consumiram dinheiro público de forma irresponsável e não terão utilidade após a Copa.

A reforma do Mané Garrincha custou R$ 1,3 bilhão. Não fosse o Brasil um país de esquema e de impostos exorbitantes, teria saído pela metade desse valor. Valor que impressiona e revolta, mas que é ínfimo perto do que a sociedade perde ano após ano, com ou sem Copa.

O Governo Federal projeta que vai arrecadar com impostos em 2013 a quantia de R$ 2.175.147.426.383,83. Vamos ignorar os R$ 175 bilhões e ficar apenas com os R$ 2 trilhões. Como esse valor volta para a sociedade? Não volta. Quem depende de serviços públicos sofre.

Quem tem mais recursos paga uma quantia absurda de impostos e ainda tem que gastar em coisas que o Governo deveria oferecer com a fortuna que arrecada. Deveria, mas aqui, o esquema é outro. E isso não tem nada a ver com a Copa do Mundo. Tem a ver com o esquema Brasil, criado antes de Felipão nascer e aprimorado ano após ano. E tem gente que critica o Neymar.

Mas é muito bom que a Copa tenha servido para chamar a atenção de uma sociedade que sofre todos os dias com o uso indevido de quantias que poderiam levantar milhares de arenas. Quem sabe esse seja o primeiro passo para que um dia o esquema mude. Para que um dia os impostos sejam revertidos, de modo honesto e eficiente, à sociedade. Estamos bem longe disso, infelizmente. Por enquanto, é mais fácil o Taiti ser campeão da Copa das Confederações. O esquema Brasil é poderoso e conta com a divisão, o egoísmo, a complacência, a ganância e a ignorância de seus adversários para vencer sempre. Tomara que um dia mude.

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