CARLO CARCANI

O público do futebol

Carlo Carcani
27/08/2013 às 23:04.
Atualizado em 25/04/2022 às 04:03

Entre as muitas críticas que considero injustas às novas arenas do Brasil se destaca a de que o público que vai aos novos estádios “não é do futebol”. Fico a imaginar o que seria o “público do futebol”, aquele do qual o esporte não pode abrir mão. Quem é essa figura que só gosta dos estádios antigos, menos confortáveis e por vezes perigosos, como a velha Fonte Nova? O perfil do “público do futebol” por acaso seria o mesmo daqueles vascaínos e corintianos que brigaram no Mané Garrincha? O “inocente” que passou seis meses preso em Oruro e já se meteu em nova confusão é o tipo de pessoa indispensável para nossas arquibancadas? É claro que não.O futebol brasileiro precisa de todo tipo de bom torcedor. Precisa dos fanáticos que não perdem um jogo, precisa das famílias e precisa, principalmente, despertar a paixão pelo esporte nas crianças, que são os torcedores do futuro.Para atrair esses milhões de torcedores, o futebol brasileiro passa a contar com estádios mais modernos, confortáveis e agradáveis. O fã fica mais próximo do gramado e a experiência de ver um jogo se transforma. Para aqueles torcedores que abraçaram Fred e Neymar na comemoração dos primeiros gols do Brasil contra a Espanha, a final da Copa das Confederações será inesquecível. Achar que eles não fazem parte do “público do futebol” é uma grande bobagem.É óbvio que com ingresso a R$ 200 para jogos comuns, as arenas vão continuar às moscas. Cobrar R$ 2 também não é solução, já que a renda é pequena e os custos do futebol são altíssimos.O segredo está em encontrar um preço justo e oferecer o melhor espetáculo possível. Nesse segundo aspecto, o Brasil está distante do objetivo. Muitas pessoas que estavam no Mané Garrincha ficaram aterrorizadas com a briga entre as torcidas organizadas de Vasco e Corinthians. Muitas delas ficarão muito tempo longe de um estádio. Algumas não vão voltar. E isso não acontece porque esse não é o “público do futebol”. Isso acontece porque nenhum torcedor normal quer frequentar um ambiente dominado por vândalos, sejam eles “heróis de Oruro” ou vereadores. É inadmissível que pessoas que agridam policiais e coloquem a integridade física e a vida dos outros em risco possam cometer impunemente esses e outros crimes rodada após a rodada.O Brasil precisa deixar de tratar com tolerância os infratores da lei que impedem o crescimento do futebol. Estádios cheios geram empregos, aquecem a economia e trazem outros benefícios diretos e indiretos a milhares de pessoas. Isso para não falar no direito que cada torcedor tem de ir ao estádio com sua família para se divertir com segurança. Por enquanto, o Governo não apenas fecha os olhos para o problema, como ainda gasta dinheiro público para defender baderneiros que se metem em confusão no Exterior. Está tudo errado e não há modernidade e ingresso barato que possa mudar esse cenário. Os estádios vão continuar vazios enquanto o público do futebol, seja ele qual for, não for tratado com respeito.

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