NELSON JACINTHO

O vento passa pela janela

18/08/2013 às 00:00.
Atualizado em 25/04/2022 às 05:00

O vento, assim como o tempo, passa pela janela na noite fria e solitária dos que estão sós e desconsolados! A solidão e o desconsolo aumentam o vento da janela e o que lhes passam pelo corpo e lhes entorpecem a alma! Nada pior do que a solidão e o desconsolo! A lua em forma de foice corta os estreitos e invisíveis canais de água que se estendem pelo universo para fazer descer sobre a terra o esperado sereno da madrugada, sereno tão aguardado pelas folhas ávidas de gotas de água pura da maravilhosa fonte dos anjos que trabalham nas noites secas do inverno! Na madrugada a água nem sempre vem dos canais invisíveis do universo, mas frequentemente da face de alguém que acabou de perder um grande amor!O poeta debruçado na janela revive os sonhos da infância e viaja confiante no sonho acordado que o transporta aos seus dias de meninice para enganar o fardo pesado dos anos que carrega sobre os ombros há muitos anos! Suas articulações enrijecidas e pesadas não lhe permitem ir além de sonhos anacrônicos e quase tragicômicos. Na madrugada o trânsito fica mais livre, inclusive para a viagem do poeta que viaja no seu tapete mágico e voador monitorado pelo motor vibrante do seu pensamento, alcançando a potência do jato e a velocidade da luz! O galo, de pescoço esguio e peito aberto, para demonstrar o seu poder sobre o reino galináceo, exalta a madrugada com seu cocoricó agudo e seu bater de asas que aquecem o seu peito para suportar o frio, e clama pelo sol que ainda está dormindo sob o seu cobertor cor de azeviche. O sol ainda vai demorar algumas horas para abrir as suas pálpebras douradas! Ele torna-se preguiçoso no tempo do frio. A vaca muge no curral para chamar o bezerro peralta que salta com suas quatro patas como se tivesse um pequeno motor à explosão. Mãe e filho tentam manter a sobrevivência nos tempos modernos da falsa cidadania!O morador de rua puxa o seu cobertor esfarrapado para tentar cobrir o peito nu, deixando de fora o pé de sola grossa, calejado e rachado, mais tolerante ao frio. O motorista de ônibus pula da cama e corre para lavar o rosto magro, porque dentro de poucos minutos deverá estar fantasiado de dono do mundo, comandando seu gigante ambulante do qual todos têm medo!O feirante, que há cinquenta anos carrega caixas de tomates e outros legumes, corre para a sua Kombi velha para fazê-la funcionar, porque já são quatro horas da manhã e ele está atrasado! A enfermeira no hospital mede a temperatura e a pressão arterial de meia em meia hora, nos velhinhos do CTI que já estão sendo visados e avisados pela morte que está chegando a hora. Eles fingem se fazer de surdos e de mudos entrando em coma para não darem a impressão de que dão importância ao que os médicos dizem, os exames demonstram e a veracidade dos fatos confirmam. Assim é o vento! Assim é a vida! Assim cai o sereno da madrugada! Assim viaja o sonho acordado do poeta! Assim vamos caminhando e sonhando! Assim vamos sendo trocados, muitas vezes, rapidamente, outras, mais demoradamente, mas sempre seguindo o vento que passa pela janela...

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