REALIZAÇÕES

Os olhos da mente

Fabiana Bonilha
13/04/2015 às 16:13.
Atualizado em 23/04/2022 às 16:37

Em muitas ocasiões, nós, que somos cegos, precisamos criar uma estrutura de apoio que subsidie e que favoreça a realização de nossas atividades. Vários apoios externos, com os quais os videntes podem contar, devem ser, no nosso caso, substituídos por recursos internos, que se traduzem na nossa capacidade de reinventar e ressignificar as circunstâncias por nós enfrentadas. Trata-se de um processo que requer fundamentalmente nosso empenho e nossa resiliência para nos adaptarmos às mais diversas e adversas situações. Na verdade, esta necessidade de buscarmos recursos e soluções criativas nos fortalece e nos torna pessoas mais capazes de lidar com desafios e de superar barreiras.Os cegos que têm a oportunidade de serem músicos, por exemplo, experimentam cotidianamente esta realidade. Na condição de quem toca algum instrumento, uma pessoa que enxerga se vale de uma partitura para assimilar todos os elementos da música, e conta com este guia durante o tempo que for necessário, até que se sinta apta a prescindir dele e decorar a música a ser executada. A pessoa vidente pode ler a partitura, e, tendo-a como apoio, consegue simultaneamente tocar a peça ao instrumento.Uma pessoa cega, por sua vez, embora possa igualmente contar com a partitura como meio de aprendizado, não pode utilizá-la durante a execução da peça, já que não é possível ler em braile com as mãos e tocar ao mesmo tempo. Para os músicos não-videntes, a partitura é tão somente uma referência, mas não um apoio à execução. Ao tocar um trecho, por menor que seja, a pessoa já precisa fazê-lo de memória, sem contar com o auxílio da leitura. Não havendo este apoio externo, o músico cego é então impelido a construir sua própria forma de aprendizado, contando apenas consigo mesmo e com seus conhecimentos musicais. Certamente uma boa dose de disciplina, de paciência e de perseverança são algumas das qualidades essenciais para a condução deste trabalho.Em outras áreas, as pessoas com deficiência visual também não podem se valer de muitas das ferramentas e artifícios utilizados pelos videntes. Estes últimos recorrem a meios e suportes concretos que os ajudam na aquisição de diversos conhecimentos. Com frequência, eles se utilizam de desenhos, de gráficos, de tabelas e de outras representações que, para nós, cegos, são ininteligíveis e não fazem sentido. Nossa forma de compreensão da realidade é muito mais abstrata e intangível, já que nossa habilidade de visualizar provém dos olhos da mente e não dos olhos físicos.Ser cego significa então uma valiosa oportunidade para desenvolvermos a inteligência e as faculdades mentais. Não enxergar, antes de ser uma deficiência, é uma rica fonte de aprendizado!

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