JOGO RÁPIDO

Parabéns, Tandara

Coluna publicada na edição de 1º/2/18 do Correio Popular

Carlo Carcani Filho
01/02/2018 às 00:00.
Atualizado em 22/04/2022 às 09:30

Realizado meses antes dos Jogos Olímpicos de Londres-2012, o Grand Prix daquele ano serviu como laboratório para o técnico da Seleção Brasileira de vôlei feminino, Zé Roberto Guimarães. As principais jogadoras foram poupadas e atletas mais jovens tiveram oportunidade de mostrar serviço. Uma das novatas era a ponteira Tandara. “Por que vou esperar 2016 se posso ir em 2012? Vou ralar muito, é um sonho disputar uma Olimpíada”, disse Tandara, então com apenas 23 anos. A dedicação foi recompensada quando Tandara viu seu nome entre as 12 convocadas para os Jogos de Londres. Ela esteve em quadra nas oito partidas da campanha e fez 7 pontos, o último deles na vitória por 3 a 1 sobre os Estados Unidos, jogo no qual o Brasil conquistou a medalha de ouro. Ser campeã olímpica é um dos grandes feitos de Tandara no esporte. Tem uma coleção de medalhas pela Seleção, outra de prêmios individuais e é uma das jogadoras mais completas de sua posição. Um de seus recordes é — ou era, depende do ponto de vista — o de maior número de pontos em uma partida da Superliga. Em 2013, quando jogava pelo extinto time da Amil, de Campinas, fez 37 pontos contra o Praia Grande. A marca espetacular caiu na terça-feira, quando Tiffany Pereira de Abreu anotou incríveis 39 pontos para Bauru diante do mesmo Praia Clube. O problema é que enquanto a jovem Tandara, de 1m86, dava seu máximo nos treinos e jogos para convencer Zé Roberto de que deveria ser convocada, Tifanny, de 1m98, se chamava Rodrigo e disputava campeonatos masculinos no Brasil e na Europa. Depois que concluiu sua mudança de sexo, Rodrigo teve autorização para jogar com as meninas, com uma rede 19 centímetros mais baixa do que a que o separava dos adversários até então. A permissão veio com a constatação de que os níveis de testosterona de Tiffany são compatíveis com as regras atuais do vôlei feminino. O COI, por enquanto, não levou em consideração que Tiffany é um homem biológico, que se desenvolveu durante anos com doses de testosterona dez vezes maiores do que a de suas indefesas adversárias. Em sua estreia no vôlei feminino, Tiffany entrou em quadra quando seu time da segunda divisão belga perdia por 1 set a 0. Com 28 pontos de Tiffany, eleita MVP do confronto, o time virou para 3 a 1. "Tivemos dois jogos diferentes: um até ela entrar, outro depois. A nível pessoal, ela tem todo o meu respeito. Mas, a nível desportivo, os seus parâmetros físicos não são os mesmos de uma mulher”, analisou a capitã do time adversário. A vantagem física é óbvia, inquestionável. Tiffany não infringe nenhuma regra e tem autorização para jogar. É essa permissão que precisa ser revista quando o COI voltar a discutir o assunto, após os Jogos de Inverno, na Coreia do Sul. Não se trata de preconceito, inclusão ou qualquer coisa do gênero. É uma questão fisiológica. Os recordes, virtudes e atuações das melhores jogadoras não podem ser ofuscados por feitos de homens (se Tiffany pode jogar com elas, logo outros poderão também). Parabéns, Tandara. O recorde ainda é seu e será até o dia em que outra mulher for capaz de superá-lo.

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