ENTREVISTA

Pensar é função do cérebro, ainda

Internet e mais: em visita a Campinas, sociólogo da UFRJ fala das mudanças trazidas pelas novas tecnologias, das facilidades que oferecem ao nosso dia a dia e dos impactos negativos sobre o lazer e a aquisição de conhecimento

Karina Fusco
02/06/2013 às 05:53.
Atualizado em 25/04/2022 às 13:57

A internet faz parte do cotidiano até de quem faz de tudo para resistir a ela. E seus benefícios, ainda que indiretamente, chegam mesmo aos que não têm acesso à rede em casa, seja na realização de um exame no consultório médico, seja na hora de fazer uma compra. No entanto, apesar do poder que a web exerce sobre todos, é necessário ressaltar que ela é apenas uma das evoluções tecnológicas que chegaram para modificar a vida do homem moderno.

De acordo com o professor de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Bernardo Sorj, que também é diretor do Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, a internet é parte de um conjunto de tecnologias digitais presentes em praticamente todos os domínios da vida cotidiana. “Existem várias tecnologias interligadas, cujas consequências não estão visíveis”, afirma.

No dia 24 de maio, Sorj ministrou a palestra Internet e Vida Cotidiana, no Instituto CPFL Cultura. À Metrópole, ele falou sobre nosso hábito de comparar presente e passado, as transformações que a instantaneidade da rede provoca ao eliminar as barreiras de espaço e tempo, as perspectivas de um futuro cada vez mais atrelado à tecnologia e a necessidade de potencializar seus benefícios e amenizar os prejuízos.

Metrópole – O que a internet representa para a sociedade atual?

Bernardo Sorj – O tema é amplo e, como o futuro não é muito claro, comparamos presente e passado. Ao fazermos isso, geralmente, caímos em erros como saudosismo (era bom quando não havia telefone celular incomodando o tempo todo e podíamos ir ao cinema sem ter alguém ao lado com o aparelho ligado) e apologia (agora é muito melhor, pois antes, quando a maioria das pessoas não tinha nem telefone fixo, era difícil se comunicar em situações de urgência). Temos que entender que, numa comparação, é difícil não pender para um lado ou outro, mas é fundamental o esforço de lembrar que sempre corremos o risco de idealizar ou demonizar o novo. Também não devemos exagerar. Tudo mudou com a internet, mas não foi nada radical. As pessoas ainda têm os mesmos dramas.

O senhor diz que estamos nos dirigindo a mudanças radicais. Por quê?

A internet é só um aspecto do processo, a que mais aparece. Mas também existem a nanotecnologia e a genética, que nos permitirão interferir em questões relacionadas à criação humana. Há, por exemplo, componentes de nosso corpo sendo produzidos exteriormente e depois integrados a nós, além da possibilidade de intervir no código genético das crianças que estão para nascer. Tudo isso vai transformar a humanidade.

E estamos preparados para isso?

A humanidade nunca está preparada. As transformações chegam e nós reagimos. Não sabemos o quanto é possível controlar essas mudanças, seus riscos e suas consequências. No futuro, a desigualdade social pode dar lugar para a desigualdade de espécie humana. Um exemplo: os pais não vão se opor à eliminação de uma doença do filho antes dele nascer e isso fará a população se dividir entre quem tem acesso a essas novas possibilidades e quem não tem.

Neste momento, que balanço podemos fazer?

Que todas as tecnologias têm pontos positivos e negativos. A lista é igualmente longa para ambos os lados. O celular, por exemplo, serve para os pais manterem contato com os filhos e saberem onde estão, mas eles também vão atender a outras ligações e ter contato com outras pessoas, o que prova que as tecnologias facilitam o dia a dia ao mesmo tempo em que trazem consequências antagônicas. O recebimento de mensagens e e-mails é outro exemplo. Eles favorecem a comunicação, mas o intenso fluxo faz com que se perca tempo com pessoas e assuntos secundários.

De que maneira a internet influencia a desigualdade social?

As tecnologias da comunicação têm usos que possibilitam a inclusão social, mas também favorecem a exclusão. Basta pensar que há 50 anos muitas pessoas nem tinham telefone fixo em casa e hoje possuem acesso a sistemas de informação no celular; isso significa uma inclusão social que facilita a rotina. Por outro lado, as novas tecnologias se disseminam primeiro entre a população mais favorecida economicamente e só depois chegam às camadas mais baixas. Embora, atualmente, a velocidade seja outra, é possível fazer uma comparação com as geladeiras. Antes, elas levavam décadas para chegar a quem estava abaixo da classe média, mas, ao chegar, era possível usá-la mesmo sendo analfabeto. Hoje, as novidades chegam rapidamente às diversas camadas, mas os analfabetos são excluídos. Um outro caso é o dos pescadores, que viviam isolados e agora conseguem saber o valor de seu produto no mercado internacional. De um lado, temos potencialidades de inclusão; do outro, de exclusão.

O senhor está dizendo, então, que a internet tem relação direta com o nível de escolaridade?

Sim. Quanto maiores a escolaridade e a cultura, não só a pessoa consegue usar essa tecnologia, como também faz melhor emprego dela. Fizemos pesquisas em favelas e descobrimos que cidadãos com formação universitária nesses locais utilizam a rede na mesma intensidade e da mesma forma do que a classe média alta. Assim, concluímos que a escolaridade é fundamental para usar a rede.

E no mundo profissional, quais os impactos dessas tecnologias?

A área do trabalho está sendo modificada fortemente pela internet. Há 15 anos, falava-se que, por causa dela, todos trabalhariam em casa. Na verdade, o que aconteceu foi que a internet e os demais instrumentos de comunicação invadiram o lazer e a vida pessoal. Os patrões hoje pensam que podem ligar para os funcionários na hora que quiserem, respondemos e-mails às 22h, aos sábados e domingos. Acabou a diferença entre trabalho e vida pessoal. Acredito que uma das grandes lutas sociais do futuro será pelo direito de estar desligado. Na Alemanha, por exemplo, já é parte dos direitos trabalhistas a pessoa não poder ser incomodada fora do trabalho ou até uma hora depois disso.

Hoje em dia, sabemos e conhecemos mais ou menos graças à internet?

A internet é relacionada à instantaneidade, um mundo onde tudo é muito rápido e onde também é grande a quantidade de informações que nos levam à indigestão. O mundo requer comunicação constante, mas o conhecimento exige reflexão, concentração, solidão até. A capacidade de associar conceitos requer tempo, e ninguém mais o tem nos dias de hoje. Na internet temos os dados, mas é a cabeça que mistura, relaciona e produz algo. Pensar ainda é atividade do cérebro humano. É fantástica a quantidade de informações disponíveis na internet. Podemos entrar em museus e ver livros aos quais só teríamos acesso indo a outros países, mas essa dinâmica de processo de trabalho e interação, cada vez mais, limita a produção de conhecimento. Por isso, é possível que a escola do futuro seja diferente do que muita gente imagina hoje. Ela deve, sim, ser um espaço em que internet não entra, pois cada um já tem a sua em casa e no bolso. 

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