ENTREVISTA

Presidente do Botafogo abre o jogo sobre problemas do clube

Gustavo Assed Ferreira assume culpa por fracasso na Série D, mas rebate críticas 'destrutivas'; dirigente revela dificuldades na administração do Tricolor e alfineta arquirrival

Luís Augusto
28/08/2013 às 12:50.
Atualizado em 25/04/2022 às 04:04

O presidente do Botafogo, Gustavo Assed Ferreira, recebeu a reportagem da Gazeta na tarde desta terça-feira (27) e fez um desabafo após ouvir e ler grande número de críticas de torcedores por causa do fracasso na Série D do Campeonato Brasileiro.“O que me ofende é alguém acreditar que tocar o Botafogo é fácil. Pior é achar que o Botafogo tem dinheiro, a verdade é que não tem dinheiro nenhum.”, disse o dirigente, que expôs detalhes do que o clube teve de fazer para conseguir administrar as contas nos últimos meses. “As receitas do segundo semestre foram o empréstimo do Daniel para o Vitória-BA que deu R$ 100 mil, quase R$ 60 mil do Boi no Rolete e R$ 10 mil de bilheteria. O restante veio de colaboradores e de verbas que conseguimos na Federação Paulista de Futebol, então tudo estar em dia durante a Série D foi um verdadeiro milagre.” Confira a entrevista com o presidente, que abriu o jogo sobre a delicada situação financeira do clube, fez um balanço da participação do clube na Série D e projetou os primeiros passos do planejamento para o Paulistão. Assed Ferreira aproveitou também para alfinetar o arquirrival, que está de volta à elite e ambos se encontrarão novamente no Paulistão de 2014. G.R.: Quais foram os motivos do fracasso do Botafogo na Série D?G.A.F.: Não houve tempo para realizar um planejamento ideal. Saímos do Paulistão de uma forma dramática por causa daquela derrota acachapante para o Mogi Mirim, fomos obrigados a reconstruir grande parte do nosso elenco profissional e talvez tenhamos exagerado nessa reforma. Não tivemos muito tempo para encontrar uma comissão técnica e hoje vejo que teria sido melhor se tivéssemos ido para o primeiro jogo contra o Metropolitano, antes da parada para a Copa das Confederações, sem um técnico definitivo. Junto a isso também não conseguimos trazer um novo gerente de futebol para o lugar do José Mário Crispim, que fazia um bom trabalho, mas já era hora de mexer nesse departamento. G.R.: Qual foi a maior falha no trabalho do técnico Ivan Baitello?G.A.F.: É inegável que alguns atletas não conseguiram atuar aquilo que se esperava deles ou atuaram muito pouco. Isso para mim foi o principal problema da comissão técnica. O Ivan demorou para conseguir encontrar um time ideal e sinto que ele só foi encontrado na antepenúltima rodada com a entrada do Emerson Alemão, que deu estabilidade para o Alan Mota e deu mais opção para o meio. Trabalhos podem encaixar ou não, mas o Ivan é um bom técnico, tem um trabalho ao longo da semana invejável e é sujeito honesto e correto, mas de fato o trabalho dele não deu certo e basta você ver que fizemos 9 pontos em 8 jogos com todas as condições que ele teve e não faltou nada. Infelizmente, ficou devendo. G.R.: Você se arrepende de não ter aceitado a saída do treinador quando ele colocou o cargo à disposição durante a Série D?G.A.F.: Não me arrependo de não ter aceitado a demissão dele faltando três rodadas porque é incompreensível que a equipe possa mudar de postura em tão pouco tempo. Quero crer que isso aconteceu no Santo André, por exemplo, porque eles não tiveram outra opção. Se a gente aceita a demissão do Baitello e traz o Paulo Roberto como eles fizeram, eu estaria crucificado de fronte ao Pedro II. Eu ia ser colocado em uma cruz e ser exposto à execração pública e a gente sabe disso porque conhecemos Ribeirão Preto. G.R.: Quais jogadores do atual elenco você pretende aproveitar no Paulistão?G.A.F.: Na minha opinião como torcedor eu posso citar alguns jogadores que foram bem na Série D e que gostaria de ver no Botafogo no próximo Paulistão, que são o César Gaúcho, que já tem contrato conosco, o Leandro foi muito bem, o Fábio foi um goleiro que mostrou segurança e vamos fazer o possível para trazê-lo de volta. Tem também o Fábio Gama, que deu uma dinâmica legal para o time, o Emerson Alemão deu estabilidade ao meio de campo, o Henrique Mattos aproveitou bem a oportunidade que teve nessa Série D, além do Alex Silva que foi uma boa opção atuando como lateral-direito e o Igor, que já tem contrato conosco. G.R.: Em números, quantos jogadores podem ser aproveitados no ano que vem e quantos deverão ser contratados?G.A.F.: Contando os meninos que vieram da base, temos a ideia de ficar com um número entre 13 e 15 atletas. A partir daí iremos em busca de outras 15 contratações para formar o elenco para o Paulistão. G.R.: Como você reagiu às críticas que foram feitas após a eliminação na Série D?G.A.F.: A gente tinha orçamento zero para montar time para a Série D, montamos o time mais barato do grupo com folha mensal de R$ 180 mil e só não classificamos por uma vitória. Eu começo a olhar para isso e lembro que estou morando mais em São Paulo do que em Ribeirão porque minha mulher está grávida de seis meses, acordo às 5 horas da manhã para sair de São Paulo e vir para reunião do Botafogo, então eu imagino se as pessoas tem ideia da dor e dificuldade que é isso. Tenho um momento profissional dificílimo nesse momento, estou com tudo atrasado e preciso de um respiro para reorganizar a minha vida antes que o Paulistão chegue. Comecei a imaginar que eu estou fazendo tudo errado. G.R.: Você pensou em deixar o cargo de presidente do Botafogo?G.A.F.: Não. Nosso grupo de trabalho é grande o suficiente para que a gente dê a cada um o que é seu dentro da estrutura do clube. Temos que dividir melhor as tarefas, mas eu nunca vou deixar de assumir integralmente a culpa pelo fracasso porque fui eu que montei o time com o Rogério (Barizza, vice-presidente do Botafogo), trouxemos o Ivan, mas tudo sem um centavo. Se isso é motivo para vermos críticas tão vorazes nas redes sociais, então eu tenho a postura de imprimi-las e estou guardando tudo porque algumas delas são assinadas. Sei também que algumas dessas críticas são plantadas por nomes que não existem, mas elas magoam. G.R.: O futuro do Botafogo é preocupante?G.A.F.: O Botafogo precisa de soluções para sair de 23 anos de problemas econômicos que foram lançados no final da gestão do Vadão e início do mandato do Montefeltro. O quadro só foi piorando e hoje esse problema financeiro ameaça a existência do clube. O Botafogo tem um padrão de endividamento que põe em risco a solvência do clube se não for achado uma solução para pagar as dívidas. O clube tem um patrimônio maravilhoso, mas não é infinito. Futebol é fundamental, mas você não consegue tirar dinheiro dos canos de água do estádio Santa Cruz, não há dinheiro lá. Por hora há água porque a gente tem pago a conta. G.R.: O leilão do poliesportivo não minimizou o problema das dívidas trabalhistas?G.A.F.: Hoje o Botafogo paga cerca de R$ 30 mil mensais ainda do resquício da dívida unificada com a Justiça do Trabalho. Mas temos outros problemas, como as dívidas trabalhistas acumuladas desde 2009, temos ações contra o Botafogo de técnicos como o Roberto Fonseca e o Lori Sandri, até hoje o Botafogo não pagou nada para o Fernando Diniz. Chegamos a um momento no Campeonato Paulista desse ano que pagamos R$ 120 mil por mês de acordos trabalhistas e tivemos nesse mesmo Paulistão apenas R$ 700 mil de toda a cota da Federação Paulista porque o resto foi usado para pagar dívidas do ano passado ou foi bloqueado na Justiça. G. R.: Qual é a dívida que mais preocupa?G.A.F.: A eterna dívida com o banco Axial é um bicho de sete cabeças e que pode causar um impacto gigantesco na vida do clube, mas por hora está sob controle. O problema é que o valor dela corre a 1% de juros por mês, mais correção monetária. O clube precisa sair dessa cilada e o Conselho Deliberativo muito em breve vai começar a discutir saídas para isso. G.R.: Qual é o real valor da dívida do Botafogo?G.A.F.: Não podemos falar isso ainda porque todos esses números que temos precisa passar antes pela mão dos conselheiros e isso será apresentado na próxima reunião do Conselho Deliberativo. O que posso dizer é que a dívida contando com o valor do Banco Axial é imenso, mas sem o Axial não é escabroso. É por isso que quero me afastar um pouco mais do futebol para me dedicar mais a essa questão financeira. Vamos trazer um gerente de futebol competente para tocar o projeto do Paulistão e será um profissional remunerado e capacitado para montar o grupo. G.R.: Com tantos problemas, o Botafogo tem condições de vir forte para o Paulistão de 2014 e para o Come-Fogo no torneio?G.A.F.: Durante a nossa gestão tivemos uma vitória e um empate na longínqua Copa Paulista do ano passado e queremos manter essa invencibilidade. Acho ótimo o Comercial ter voltado a Série A1, pois já vamos dar a largada no próximo Paulistão com 3 pontos garantidos. A obrigação de ganhar o clássico da cidade é nossa e qualquer resultado diferente disso será um prejuízo para o Botafogo.

Assuntos Relacionados
Compartilhar
Correio Popular© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por