‘INTEGRA SAÚDE’

Campinas lança plataforma digital que reúne histórico médico dos usuários da rede municipal

Banco de dados compartilha avaliações clínicas emitidas pelas unidades da atenção primária e secundária

Mariana Camba/mariana.camba@rac.com.br
23/05/2026 às 17:06.
Atualizado em 23/05/2026 às 21:20

Entre os dados dos pacientes que constarão do prontuário digital estão: estado geral, evolução clínica, cirurgias realizadas e medicações prescritas (Kamá Ribeiro)

A Prefeitura de Campinas lançou ontem (22) a plataforma “Integra Saúde”, que reunirá o histórico médico dos quase um milhão de usuários registrados na rede municipal. Os dados serão disponibilizados a partir de junho por meio de prontuários digitais, que concentrarão as informações geradas em consultas e exames. O banco de dados reunirá as avaliações clínicas emitidas pelas unidades da atenção primária e secundária, que incluem os Centros de Atenção Psicossocial (CAPs), policlínicas, Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e hospitais administrados pela Rede Mário Gatti, com a promessa de agilizar os atendimentos e evitar a emissão de exames duplicados, o que deve gerar uma economia de até 30% dos gastos públicos.

A plataforma possibilitará que os profissionais da saúde de determinada unidade acessem a avaliação clínica registrada em outras unidades e consultem as prescrições médicas e resultados de exames anteriores. A integração evitará que os procedimentos sejam refeitos, o que deve acelerar a resolução da análise médica e da continuidade dos tratamentos, além de diminuir as filas de espera para a realização de exames. Segundo o prefeito, Dário Saadi (Republicanos), a medida é um avanço ao permitir que o médico não solicite exames realizados recentemente, o que irá trazer uma economia de 15% a 30% para o sistema de saúde.

Os dados integrados no prontuário digital serão separados por pastas de informações clínicas, pessoais e com o histórico do paciente. Assim, serão acompanhadas a variação de peso e altura, histórico da pressão arterial, frequência cardíaca, além de resultados de exames, medicações prescritas, diagnósticos, cirurgias realizadas e a evolução clínica do paciente. Segundo a diretora do Departamento de Ensino, Pesquisa e Saúde Digital, Marcelle Regina da Silva Benetti, até então os dados dos usuários eram registrados de maneira fragmentada e, a partir de hoje (23), eles passam a ser integrados. 

Para o presidente da Rede Mário Gatti, Edson Soares Bezerra, a plataforma trará o melhor para a rede, com a possibilidade de o médico atender o paciente sabendo de toda a trajetória dele no sistema de saúde. “São informações que vão encurtar bastante o processo de atendimento e da assistência”, ressaltou. A novidade foi apresentada pela Administração como um projeto de saúde digital que eliminará os prontuários de cada unidade de saúde ao unificá-los, evitando assim um desencontro de informações. 

A promessa de integrar a jornada do paciente, independentemente de onde ele estiver, foi pontuada por Marcelle como o cenário ideal para os médicos, que deve refletir na maior segurança do paciente e na resolutividade profissional. “Agora, nós temos um ecossistema digital integrado que concentra as informações de diferentes frentes em uma mesma plataforma, junto à linha do tempo assistencial organizada”, reforçou Marcelle.

O sistema será acessado pela plataforma “Gov” e o prontuário será localizado pelo nome ou CPF do paciente. “São milhões de dados que estão sendo inseridos no sistema, tendo em vista que cada paciente gera diversos exames e orientações médicas. Diante desse volume monstruoso de informações que estão sendo adicionadas, vamos precisar de mais 15 a 20 dias para que todos os usuários sejam inseridos na plataforma”, explicou Dário ao ressaltar que o sistema iniciou a sua operação depois de passar por testes.

Segundo Edson, em torno de 1/3 dos exames realizados na Rede Mário Gatti não são consultados pelos pacientes, como uma referência ao volume de procedimentos desnecessários. “O que visamos com a iniciativa vai além da questão financeira e numérica, ao garantirmos a humanização da assistência prestada”, afirmou o presidente da Rede. O projeto, que foi desenvolvido pela equipe de Tecnologia da Informação da Prefeitura, disponibilizará as informações de acordo com a trajetória que o paciente percorreu no sistema, portanto, desde quando ele foi inserido no SUS municipal.

O próximo passo da administração é integrar os prontuários dos hospitais conveniados ao município, como o da PUC-Campinas e o Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp. “Uma estrutura como a do Hospital da PUC-Campinas, que é o nosso maior hospital de referência, utiliza outro sistema de informática. Então, usar essas informações não demanda uma solução simples tecnicamente. Outras melhorias do sistema serão desenvolvidas junto aos profissionais que vão operá-lo e, a partir deste uso pleno da ferramenta, vamos pensar em integrar os parceiros conveniados”, explicou o secretário de Saúde de Campinas, Lair Zambon. 

Para a auxiliar de cozinha, Jaqueline Batista, a mudança anunciada pela Administração é positiva, diante das horas de espera que o paciente precisa enfrentar para refazer os exames a cada novo atendimento. “A minha filha de 26 anos era atendida por um médico da Rede Mário Gatti, que não está aqui no hospital hoje. Ela tem câncer, está na fase terminal e vai precisar refazer alguns dos exames porque agora é um novo médico que irá atendê-la”, desabafou. Essa é uma situação difícil por si só, acrescenta, pois ela está fragilizada e deve esperar mais de seis horas para que os resultados sejam emitidos. “Tudo bem que a cidade conta com alta demanda, mas é um absurdo passar por uma situação como essa e nessas condições”, reclamou Jaqueline.

A técnica de enfermagem, Alessandra Ferreira de Oliveira, foi até o Hospital Mário Gatti na tarde de ontem (22) e disse que, todas as vezes em que recorreu ao serviço de saúde municipal, precisou refazer os exames. “Se você vai a uma unidade diferente de onde você foi atendida pela última vez, você repetirá os mesmos procedimentos. “Sempre é assim, o que é horrível por causa das horas de espera para sair o resultado, mesmo que o exame tenha sido feito há poucos dias”, contou. A situação é incompreensível, acrescenta, e esse avanço deveria ter acontecido antes.

AVANÇO TARDIO

Segundo o ex-presidente do Conselho Municipal de Saúde e militante membro do Movimento Popular de Saúde de Campinas, Paulo Mariante, a tecnologia pode ajudar os pacientes ao integrar as informações do atual sistema fragmentado disponível. A novidade, ressalta, é uma discussão antiga das conferências do Conselho: como melhorar a integração da atenção primária, da urgência e emergência. “Um dos pontos mais relevantes é a dificuldade dos profissionais da saúde para lidar com os diferentes modelos de prontuário presentes no sistema, o que tem gerado problemas no fluxo de informação”, explicou Mariante ao presumir que a situação deve ter contribuído para a demora na adoção da nova plataforma.

A efetivação desse sistema é necessária, acrescenta, mas acontece de modo tardio, ainda que ajude no fluxo das informações. “A gente pode ter um avanço na demora para realizar os exames, mas a medida deveria ter vindo antes. Agora, toda a rede tem de ser avaliada como condição efetiva da utilização desse projeto. E prefiro partir da premissa de que as melhores condições serão oferecidas”, concluiu Mariante ao ressaltar o sucateamento do quadro de trabalhadores da saúde e, por consequência, a falta de médicos.

PROGRAMA SUS DIGITAL

Segundo o Ministério da Saúde, o SUS conta com uma estratégia nacional de Saúde Digital, estruturada pelo Programa SUS Digital, atuante por meio da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS). A RNDS permite o compartilhamento seguro de informações entre serviços e sistemas, inclusive entre municípios e estados, e conta com mais de 4,6 bilhões de registros, incluindo dados de vacinação, exames, prescrições, atendimentos e da Saúde Suplementar.

“O município utiliza o PEC eSUS APS, com envio regular de dados para a RNDS, como Registro de Atendimento Clínico, Registro de Exames Laboratoriais, Prescrição Eletrônica e Regulação Assistencial. Campinas também está integrada ao SUS Digital Profissional, solução disponibilizada gratuitamente pelo Ministério da Saúde para apoiar o acesso seguro a informações clínicas no contexto do atendimento”, informou o Ministério por nota.

A Prefeitura de Campinas informou que o sistema lançado pelo município contempla as particularidades da saúde local ao integrar os dados das diferentes plataformas utilizadas, como o e-SUS, do Ministério da Saúde. O “Integra Saúde” concentra as informações de mais de um sistema; portanto, além de contar com uma equipe própria disponível para eventuais problemas, não depende de outro órgão para a sua resolução.

Assuntos Relacionados
Compartilhar
Anuncie
(19) 3736-3085
comercial@rac.com.br
Fale Conosco
(19) 3772-8000
Central do Assinante
(19) 3736-3200
WhatsApp
(19) 9 9998-9902
Correio Popular© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por