SEGURANÇA PÚBLICA

Atlas da Violência de 2026 registra crescimento de homicídios na RMC

Levantamento foi feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública

Bargas Filho/bargas.filho@rac.com.br
31/05/2026 às 10:08.
Atualizado em 31/05/2026 às 10:08

Município da Região Metropolitana de Campinas, Valinhos registrou a maior variação nas taxas de homicídios por 100 mil habitantes em 2024, segundo levantamento feito pelo Ipea e pelo FBSP (Alessandro Torres)

A aposentada Maria Aparecida Lopes, de 65 anos, caminha tranquila pelas ruas no Centro de Valinhos e, também, no Parque Bom Retiro, onde mora. “Nossa, não dá para dizer que Valinhos é muito violenta”, afirma. Ela reside no município da Região Metropolitana de Campinas (RMC), que registrou a maior variação nas taxas de homicídios por 100 mil habitantes, segundo o Atlas da Violência de 2026, feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Segundo esse estudo, que se refere ao ano de 2024, Valinhos passou de 0,77 em 2023 para 3,05 em 2024, um aumento de 296,1%. 

“Tem outras cidades violentas aqui perto”, diz a moradora, agora valinhense, que chegou há 20 anos do Paraná. E ela está certa. Americana aparece com crescimento de 88,7%, passando de 4,08 para 7,7 homicídios por 100 mil habitantes. Em Paulínia, a taxa subiu 59,4%, de 7,05 para 11,24. Já Sumaré registrou aumento de 28,1%, enquanto Campinas teve alta de 23,5%. Indaiatuba apresentou crescimento mais moderado, de 9,4%. 

A estatística oficial da Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP), com base nas ocorrências registradas como homicídio doloso, revela que, em 2024 — ano da pesquisa do Atlas da Violência —, Valinhos teve dois homicídios e um em 2023. Já Campinas registrou 87 mortos em 2024 e 100 em 2023. Em Paulínia, o ano de 2024 teve sete assassinatos e três no ano anterior. Em Sumaré, no ano do estudo, ocorreram 29 homicídios e, em 2023, ocorreram 22. Em Indaiatuba, nos dois anos, foram sete homicídios em cada um. 

Os pesquisadores que elaboraram o Atlas da Violência destacam que os números oficiais apresentados pela SSP podem não retratar integralmente a dimensão da violência. É que o estudo estima a existência de homicídios ocultos, que são casos inicialmente registrados como mortes por causa indeterminada, mas que podem, na realidade, ser homicídios. Campinas, por exemplo, teve 22 mortes não definidas como homicídio, porém, com sinais de violência, em 2024. Enquanto Sumaré e Indaiatuba registraram cinco cada. 

Em nota, a SSP informou que acompanha os indicadores criminais por meio do programa SP Vida, que integra forças de segurança na análise de ocorrências e no planejamento de ações preventivas. “A região de Campinas, atendida pelo Departamento de Polícia Judiciária do Interior 2 (Deinter-2), mantém trajetória de redução dos homicídios dolosos no longo prazo”, informa a SSP. Segundo a pasta, entre abril de 2025 e março de 2026, a taxa registrada foi de 4,56 homicídios por 100 mil habitantes, queda de 84,6% em comparação com 2001, quando o índice era de 29,66. 

A secretaria também ressaltou que São Paulo possui atualmente a menor taxa de homicídios do país, resultado de investimentos em inteligência policial, tecnologia, monitoramento e integração operacional. De acordo com a pasta, de janeiro a abril deste ano, ocorreram os menores índices da série histórica nos crimes de homicídio doloso e latrocínio para o período, segundo a Secretaria da Segurança Pública. Em abril, os municípios paulistas totalizaram 202 homicídios dolosos. No quadrimestre, foram 807 ocorrências, uma redução de 3,7% na comparação com o mesmo período de 2025, quando aconteceram 838 casos. 

Apesar da alta apontada pelo Atlas da Violência, moradores de Valinhos entrevistados pelo Correio Popular afirmam não perceber um cenário de insegurança na cidade. “Aqui me parece que oferece mais segurança. Não dá para comparar com cidades como Campinas ou Hortolândia. A gente não ouve falar de morte violenta aqui como ocorre nas grandes cidades”, afirma o professor aposentado William Fonseca, de 68 anos, que mora no município há dois anos. 

A estudante do curso técnico de auxiliar de enfermagem, Katryna Carvalho, de 18 anos, nascida em Valinhos, compartilha da mesma percepção. Não tem muito crime violento aqui. É diferente de Campinas ou de São Paulo. Não dá para ter essa sensação de cidade violenta”, diz. Dona Maria Aparecida reforça: “Eu acho ótima a cidade onde eu moro”, comenta. 

A Prefeitura de Valinhos informou, por intermédio de nota, que os dados divulgados pelo Atlas da Violência 2026 têm como base informações consolidadas até 2024 e, por isso, não refletem as ações implementadas pela atual gestão municipal, iniciada em janeiro de 2025. “A administração vem ampliando investimentos em tecnologia, inteligência, integração entre as forças de segurança, monitoramento e estrutura operacional. E reafirma seu compromisso permanente com a segurança da população e destaca que vem ampliando os investimentos em tecnologia, inteligência, integração entre forças de segurança, monitoramento e estrutura operacional”, informou em nota. 

O município acrescentou que continuará adotando medidas voltadas à prevenção da criminalidade e ao fortalecimento da sensação de segurança nos bairros. 

A Prefeitura de Paulínia publicou em seu portal que o município registrou queda expressiva nos crimes de roubo e furto entre 2025 e 2024, conforme os dados oficiais divulgados pela SSP. “A redução desses índices demonstra o fortalecimento das estratégias de prevenção, patrulhamento e atuação integrada das forças de segurança no município”, informa a Prefeitura. E que esses dados refletem um trabalho técnico, permanente e bem coordenado das forças policiais que atuam em Paulínia. Na cidade existe a integração entre a Guarda Civil Municipal, a Polícia Militar e a Polícia Civil, com planejamento operacional e uso de inteligência. 

A avaliação do Atlas da Violência de um crescimento moderado da taxa de homicídio em Indaiatuba, entre as cidades da RMC, foi interpretada pela prefeitura da cidade como uma referência nacional em segurança pública. O prefeito de Indaiatuba, Custódio Tavares, divulgou na página oficial da Administração que a cidade “mostra que planejamento, investimento em tecnologia, valorização das equipes e integração entre as forças de segurança geram resultados concretos para a população”. Já o secretário municipal de Segurança Pública, Sandro Bezerra Lima, enfatizou que o desempenho do município é fruto do trabalho conjunto realizado diariamente pelas equipes de segurança. 

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