Comportamento

Só mais um cafezinho

Quarentena faz consumo de café aumentar e puxa também a venda dos grãos nas versões 'gourmet', moedores e máquinas

Adriana Menezes
02/05/2020 às 16:29.
Atualizado em 29/03/2022 às 12:23

Com as cafeterias fechadas em todo o mundo, os fiéis frequentadores e assíduos consumidores de café levaram o hábito para dentro de casa. Abrir mão da bebida não estava em questão. A alternativa foi aumentar o consumo e melhorar a prática de se tomar um bom café no conforto do lar. Na ponta da cadeia de produção, os produtores tiveram um aumento nas exportações de café de 20% a 30%, destinados especialmente à Europa, onde o consumo doméstico aumentou, segundo analistas de mercado. No mercado interno, quem não abre mão do costume confirma que o café ganhou o lugar de bebida preferida durante o isolamento. O Brasil mantém a posição de maior produtor e exportador de café do mundo, e desponta como o segundo maior consumidor da bebida, perdendo apenas para os Estados Unidos. Com a quarentena, tudo indica que a média de consumo anual per capita do brasileiro, de 4,82kg de café torrado e moído, pode aumentar. “Quem levava um, passou a levar dois pacotes de café”, diz Joel Hardeman, barista, mestre de torra e proprietário do Café 1727 Coffee Roasters, inaugurado há um ano em Barão Geraldo. Ele mantém o espaço fechado ao público, mas atende em domicílio ou para retiradas de pedidos. “As pessoas estão comprando o café em maior quantidade. A procura por moedores, chaleiras ou equipamentos para extração do café aumentou.” Acostumado a moer cerca de 20kg de café por semana, uma parte para ensacar e outra para utilizar no consumo de café in loco (quando estava aberto), Joel diz que se surpreendeu, porque logo no começo todo o café moído foi vendido. “Quando divulguei que estava entregando, as pessoas começaram a passar aqui e levar o café.” Durante a quarentena, Joel acredita que aumentou seu próprio consumo diário. “Eu tomo o dia inteiro, porque fico na cafeteria. Chego em casa e tomo mais café. Mas meus clientes, pelo que temos conversado e o que eu tenho vendido, estão tomando muito mais café em casa.” Novos hábitos O casal Wagner José Correa e Simei Simões Correa está entre os consumidores que, para manter a qualidade do café que tomava nas cafeterias, começou a comprar mais pó para fazer o café, além de apetrechos novos para a extração. Simei comprou um bule com termômetro e um decanter para que o casal aprimore a qualidade do café que agora têm de tomar em casa. “Sempre fui apreciador e degustador de café. No começo, eu tomava normalmente, como quase todo brasileiro, sem me preocupar com técnicas e moagem, mas comecei a conhecer os cafés frequentando cafeterias”, conta Wagner, que primeiro se tornou um voraz bebedor de café espresso. “Comecei a me interessar pela técnica, o segredo da pressão adequada na máquina e aqueles segundos de extração. Comprei uma máquina caseira de espresso e passei a frequentar workshops e degustações de café, foi quando comecei a conhecer a bebida filtrada e fiquei apaixonado”, lembra o pastor presbiteriano, que costuma marcar reuniões em cafeterias diferentes, para conhecer novos lugares. “Conheci os grãos selecionados e as novas técnicas de extrair café filtrado, porque até então era só o coador de pano que eu conhecia. Tenho entrado em um novo patamar de degustação, que me desperta para as diferentes notas do café”, fala Wagner. Durante a quarentena, ele diz que também voltou a usar em casa a prensa francesa, outra forma de extração de café. Na hora de preparar, a moagem certa é fundamental, para isso Wagner tem o moedor elétrico de grão. Em média, ele toma duas a três vezes por dia a bebida. “Antes eu não tomava à noite, mas agora, no isolamento, tenho tomado.” Mais recentemente, Simei o acompanha nestes momentos de degustação, uma vez que, em casa, ela passou a apreciar mais o hábito. O café tem sido a bebida companheira do casal na quarentena. Wagner gosta de fazer uma correlação do café com a vida: “O café me faz pensar em como, à medida que vivemos e aprendemos coisas novas, nossa percepção fica mais aguçada; quanto mais bebemos café, mais nosso paladar também fica aguçado. Tem tanta coisa boa escondida que precisa ser descoberta!”, conclui Wagner. Especialista A pesquisadora Flávia Bliska, estudiosa de café e consumidora apaixonada da bebida, diz que na quarentena “dá mais tempo de levantar e fazer o café com calma”. “Depois do almoço quando pergunto ‘alguém aceita café?’, todos querem, e dá tempo de fazer porque estão todos em casa”, descreve Flávia, que cumpre o isolamento com a família. “Estamos bebendo o estoque de café que eu tinha de lugares como China e Índia, que não são muito melhores que os nossos”, atesta. A filha, Anna Laura Bliska, também aumentou significativamente o consumo de café em função das videoaulas. Ela faz duas faculdades e três cursos extras, inclusive aos sábados. “O café virou rotina, porque à noite as aulas vão até tarde.” Para Flávia, o impacto no aumento do consumo em casa ainda é muito pequeno, apesar de haver estimativas nesse sentido. “O consumo de café gourmet está aumentando no mundo inteiro. Com as cafeterias fechadas, o consumo no lar certamente vai absorver um pouco desta venda. Mas na perspectiva do pequeno produtor, pode acontecer de serem prejudicados pela queda no valor”, avalia. Ela observou que algumas marcas de café em cápsula estão vendendo pela internet sem frete. “As cafeterias e as marcas estão se reinventando para manter a venda de cafés especiais, principalmente”, afirma. Segundo a pesquisadora, a safra de 2020 deverá bater recorde, porque há uma expectativa muito boa, uma vez que a produção cafeeira (especialmente o tipo Arábica) segue uma bienalidade, sucedendo ano de baixa e ano de alta, e em 2019 a safra teve queda.  A produção O produtor de café Maico Anghinoni Marchi, de Serra Negra (SP), confirma que sua safra de 2019 foi muito ruim, com quebra de 30%. No ano anterior, 2018, ele diz que foi “razoável”. “Em 2020, vai ser melhor que 2018”, diz o produtor. Segundo ele, muitos produtores brasileiros já venderam no mercado futuro boa parte da safra ao mercado externo, em função disso houve um aumento em torno de 20% a 30% nas exportações, mas a colheita vai começar neste mês de maio. Ele vendeu no mercado futuro, há 15 dias, cerca de 60% da produção que vai começar a colher agora. Em anos anteriores, ele comercializava antes da colheita em torno de 30%. Segundo analistas, o aumento das exportações se deve ao crescimento do consumo doméstico na Europa, onde as cafeterias, devido ao isolamento obrigatório para conter o coronavírus, estão fechadas. “O reflexo lá fora é o mesmo daqui de dentro (do Brasil)”, diz Maico, referindo-se à Europa, o maior mercado consumidor de café em todo o mundo (considerando o bloco do Mercado Comum Europeu, uma vez que Estados Unidos e Brasil são os dois maiores mercados consumidores mundiais de café). A Europa é responsável por 32% do consumo mundial de 54,54 milhões de sacas/ano, segundo a Embrapa Café (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Mas para Maico, o aumento das exportações também pode ter acontecido em função da falta de previsão. “Assim como eu vendi mais da metade da minha produção, por segurança, porque não sei o que vai acontecer no futuro, pode ser que os importadores tenham pensado da mesma forma, para fazer estoque.” “Ninguém sabe o que vai acontecer. Eles estão sem estoque lá fora.” “Há bastante café no pé. A colheita vai ser boa”, mas neste momento de entressafra, falta café no mercado de commodities e, portanto, o preço está em alta porque não há o grão disponível. Uma saca que era vendida a cerca de R$ 420,00, agora chega a custar R$ 590,00. “Subiu rapidamente, foi um boom, mas acho que vai voltar ao preço anterior. Agora, não tenho café nem pra comprar nem pra vender.” Maico produz anualmente uma média de 800 a 900 sacas. Ele é a quarta geração do Sítio Santa Rosa de Lima, em Serra Negra, que começou a produzir com seu bisavô. Consumo crescente O consumo per capita de café no Brasil é de 6,02 kg/ano de café cru e 4,82 kg/ano de café torrado e moído, de acordo com dados da Pesquisa Tendências do Mercado de Cafés da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), referentes a 2018. Os números colocam o País em segundo lugar no consumo de café do mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. No período de novembro de 2017 a outubro de 2018, o consumo interno de café no Brasil, de 21 milhões de sacas, teve um aumento de 4,80% em relação ao período anterior (novembro de 2016 a outubro de 2017). A tendência global de aumento do consumo se repete no mercado interno brasileiro, que também aponta para o aumento do consumo de produtos diferenciados, conhecidos como cafés “especiais”, os chamados “gourmets”, que consistem em grãos selecionados de maior qualidade. Esta demanda é também crescente no País. De acordo com o mestre de torra Joel Hardeman, o brasileiro aos poucos tem consumido mais o café especial, que tem qualidade de torra e beneficiamento atrelados. “Há cafés especiais que são de preços altos, de até R$ 120,00 o pacote de 250gr, mas um café especial com preço acessível ao consumidor, em média de R$ 22,00 o pacote de 250gr, o público consome e, devido à qualidade, vai repetir. O preço é um fator importante. Eu consigo manter a qualidade e o bom preço porque negocio direto com o produtor, numa relação de fidelização com a fazenda”, afirma Joel, que acha que chamar de “especial” já nem cabe mais, porque o café de qualidade deve ser o de todo dia, e não apenas para ocasiões especiais.

Assuntos Relacionados
Compartilhar
Correio Popular© Copyright 2026Todos os direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por