Em 1963 eu era estudante de segundo colegial e tentando “colocar o carro na frente dos bois” resolvi fazer cursinho. Comecei como ilustre paraquedista no Curso Carlos Chagas. Os Drs. Munhoz, Eugen e Virgílio Paccola coordenavam o cursinho. O pensamento comungado então era que para entrar na Faculdade de Medicina você tinha fazer pelo menos dois anos de cursinho. Os colegas veteranos contavam os dissabores de uma reprovação e o terrorismo com os mais jovens era diário.
Logo no início do ano os diretores do curso anunciaram que dois novos professores seriam contratados. Um para Biologia e Genética e outro para Química Inorgânica. Com ansiedade esperávamos a vinda dos novos professores. Certa tarde a secretária do curso, a Dona Iris, anunciou em segredo (para todos, claro) que o concurso para professor havia sido feito e que os escolhidos tinham sido o Gigante e o Passetto, ambos acadêmicos de medicina. Nessa época a seleção de professores para os cursinhos era realizada por meio de uma aula, onde se analisava a didática do candidato. Talvez hoje em dia essa qualidade, não seja tão valorizada, pois, para alguns o computador e seus maravilhosos recursos substituem o professor.
A nossa expectativa seria minimizada quando no horário semanal anunciaram a primeira aula dos novos professores: Gigante para Química Inorgânica e Passetto para Biologia. Todos a postos e entra em classe um jovem com mais de 1,90 m. Ótimo temos aula de Química com o Gigante. Eis que o professor começa a falar sobre estrutura celular e se identifica como Passetto. Na aula seguinte entra um professor com pouco mais de 1,60 m e se identifica como o Gigante. Surpresa geral.
Excluídas as surpresas pela desconexão nome-altura, tivemos durante o ano excelentes aulas com dois grandes didatas. O Roberto Passetto Falcão, posteriormente também meu Professor de Hematologia na Faculdade, foi um dos introdutores de uma nova maneira de aprender Biologia. Sua orientação era que tínhamos que pensar e raciocinar em Biologia, enquanto a visão vigente até então era que Biologia deveria ser decorada, ou como dizíamos “matéria decoreba”.
Neste ano, que completamos o sexagésimo aniversario da publicação do artigo que propôs o modelo da estrutura do DNA (a molécula da vida), lembrei-me das aulas do Passetão (o aumentativo o diferenciava do seu primo, o Passetinho, que no Cesar Lattes era professor de eletricidade). Grande didata e sempre um incentivador dos alunos. Com ele aprendemos a curiosa estrutura do DNA e a complementaridade de bases nitrogenadas (A-T e C-G), o código genético, gostar do desafio de resolver problemas de genética aplicando as leis de Mendel e conceitos, então abstratos, como “linkage” e “crossing-over”.
O Edmilson Gigante, corintiano e grande “médio volante” da seleção de futebol (se ele ler esse texto, vai gostar), hoje professor de Medicina e Oftalmologista em Presidente Prudente, foi um dos grandes didatas que vi em tantos anos como aluno e professor. Tinha uma qualidade em desuso nos dias atuais. Usava o quadro negro (ou verde) com maestria. Começava suas aulas em um dos cantos da lousa e depois de 70 minutos (o tempo que as aulas duravam então) chegava ao canto oposto, usando giz com cores diferentes para escrever as reações químicas ou explicar aquelas “coisas” chatas e complicadas de Química Inorgânica, como número de Avogadro, molaridade, molalidade etc. Um de seus orgulhos era quando a secretária do cursinho acionava por engano o sinal de fim de aula e ele ainda não chegara ao fim da lousa. Ele então falava para os alunos: ”Calma, não se levantem, a Secretária errou o horário, pois eu ainda não cheguei ao fim da lousa”. E sempre esteve certo.
Nesta semana, em que a Feira do Livro está reverenciando os professores, deixo a minha lembrança, homenagem e agradecimento a dois grandes mestres da pouco valorizada arte de ensinar.