No final de 68 eu terminara o quarto ano médico. Houve então uma “determinação” governamental que os recém-formados, ou pelos menos parte deles, deveriam por um ano prestar serviços para as forças armadas. Isso provocou uma grande preocupação, pois em nossos planos, terminar o curso Médico significava fazer residência, especialização e cuidar da vida. Um ano trabalhando em um hospital de fronteira, significaria postergar um projeto de vida. Como vocês sabem nessas situações surgem os mais variados boatos. Como transpor esse obstáculo? Nos bochichos nos cafés da esquina da Única surgiram duas opções para não enfrentar o ano indesejável: casar (casados não seriam convocados) ou ir para o Projeto Rondon.O Projeto Rondon foi um programa coordenado pelo Ministério da Defesa, em colaboração com o Ministério da Educação, que tinha como objetivo promover o contato de estudantes universitários voluntários com o interior do país Isso se fazia com a realização de atividades assistenciais em comunidades carentes e isoladas. O programa gozava na época, em pleno regime militar, de certa desconfiança sobre seus propósitos. Seria propaganda do regime? Seja lá como for decidi inscrever-me para o Projeto. O Prof. Romualdo de Souza era seu coordenador. Fui selecionado e em Janeiro de 1969 viajamos num DC-3 (avião antigo e histórico) para Cáceres, Mato Grosso. Só havia então um Mato Grosso. O avião bimotor tinha os bancos de alumínio colocados no sentido longitudinal do avião e também é fácil imaginar como balançava. Foi minha primeira experiência no ar. Da turma da Medicina também viajaram o Drs. Marco Antônio Zago (hoje Pró-Reitor da USP) e os colegas Marco Antônio Sahão e João Luís Trevelin, Getúlio Lupi Ursulino (todos eles nos deixaram prematuramente), além de estudantes de agronomia, odontologia, farmácia, engenharia e uma assistente social. Guardo algumas lembranças interessantes dessa aventura nas selvas do Brasil Central. Chegando a Cáceres, ficamos por três dias recebendo orientações de sobrevivência “na selva” e depois então fomos divididos em grupos de “médicos, agrônomos, dentistas” para visitarmos diferentes áreas. Meu grupo ficou encarregado de visitar Vila Bela da Santíssima Trindade (divisa com a Bolívia), Pontes e Lacerda, Jauru e Porto Esperidião. A primeira parada foi em Pontes e Lacerda, pois as chuvas torrenciais isolaram e impediram nossa ida a histórica Vila Bela. Pouco mais de 230 Km de Cáceres. Doze horas de viajem de Jeep, sob o sol escaldante de Janeiro. Nunca gostei de comer ovos e como filho único tinha esse privilegio, pois a Dona Wilma sempre cuidou desse capricho, Pois bem, no meio da viagem, com uma “baita” fome, paramos para almoçar, em plena floresta tropical e recebemos a informação que o almoço seria uma “ração seca”. O que será isso? Essa ração era composta de meia dúzia de ovos cozidos e um pedaço de carne cozida, mas fria. Comi, sem reclamar e com muita satisfação. A cidade de Pontes e Lacerda tinha somente uma rua com duas fileiras de casas de madeira. De um lado moravam os católicos e do outro os evangélicos. Em lá chegando fomos convidados a visitar o líder local. Ele nos recebeu com muita educação na varanda de sua casa e educadamente nos ofereceu uma cerveja. Com um calor de mais de 40 graus e muita sede, aceitamos com o “pé atrás” uma vez que na cidade não havia energia elétrica. Qual foi a surpresa ao vermos uma geladeira “a querosene” e colocada sobre a mesa uma garrafa de cerveja de casco escuro envolvida por “neblina”, pressupondo quatro ou cinco graus centigrados. Seria miragem? Entre abri-la e tomarmos o primeiro gole passou um século. Foi uma das cervejas inesquecíveis de minha vida, e o primeiro gole a gente nunca esquece.