PIRACICABA

Vinhaça pode ampliar a vida dos canaviais

Usinas pesquisam o uso concentrado na cultura da cana; estudo trabalha com a correção da acidez do fertilizante

Adriana Ferezim
23/09/2013 às 10:20.
Atualizado em 25/04/2022 às 03:39
Produtividade da cana-de-açúcar aumenta com o uso da vinhaça (Antonio Trivelin)

Produtividade da cana-de-açúcar aumenta com o uso da vinhaça (Antonio Trivelin)

Nessa época do ano é comum as pessoas sentirem um forte cheiro nas áreas próximas aos canaviais. É a vinhaça, produto que resulta da produção do etanol e que é utilizado como fertilizante da cana-de-açúcar. Ela é utilizada no cultivo o ano inteiro, mas somente em 35% dos canaviais, que são as áreas que ficam a uma distância máxima de 15 quilômetros das usinas. A expansão para outros setores cultivados tem sido estudada pelas usinas, que avalia os custos para concentrar a vinhaça e, dessa forma, poder transportá-la para locais mais distantes e adubar até todo o canavial. A informação é de Claudimir Penatti, autor do livro Adubação da Cana - 30 anos de experiência, lançado pelo Centro de Tecnologia Canavieira (CTC) de Piracicaba. Ele trabalha na área de Desenvolvimento de Produto, na validação das variedades CTC e na área de Nutrição da Cultura da Cana-de-Açúcar.Para Penatti, o aumento da aplicação da vinhaça traria inúmeros benefícios. “Geralmente o período de cultivo da cana sem a renovação do canavial é de até cinco anos. Com o uso da vinhaça, a cana mantém a produtividade por um período de 10 a 15 anos, sem a renovação”.O que impede a ampliação do uso da vinhaça é o custo. “Como a aplicação da vinhaça também exige muita água, fica caro o custo do transporte. Por esse motivo, as usinas ainda utilizam adubos químicos nas áreas mais distantes, porque o custo da aplicação nessas áreas se torna menor do que transportar a vinhaça e a água. Cada 100 metros cúbicos de vinhaça exige uma aplicação de uma faixa de 10 milímetros de água. Isso pode ser modificado com a concentração da vinhaça, mas ainda está sendo avaliado o custo da energia para produzir o lodo”.Segundo Penatti, na produção do etanol, cada litro do combustível resulta em 10 a 13 litros de vinhaça. “A cana-de-açúcar é a única cultura que tudo que produz volta para o solo, é totalmente renovável”, comentou. ÁguaA influência do uso do solo, com o cultivo da cana-de- açúcar, na qualidade da água e na demanda é um dos temas abordados no Plano das Bacias Hidrográficas dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ). O estudo indicou que 506.488,21 hectares da bacia são ocupados com cana-de-açúcar, o que corresponde a 33,61% da área. Do total de 1,5 milhão de hectares de toda a bacia, o plantio só perde para as áreas de pastagem, que ocupam 588.625,73 hectares (39,06%) da área, conforme relatório de 2002/2003.Os outros usos do solo da bacia são ocupações de água (1,47%), área urbana (6%), cultura anual (5,90%), cultura perene (0,95%), reflorestamento (4,01%), solo exposto (0,77%), vegetação nativa (7,93%) e outros (0,31%).O plano prevê crescimento do cultivo de cana nas áreas de pastagens do Setor Oeste da bacia, onde estão os rios Piracicaba (represas de Santa Maria da Serra e Barra Bonita), rio Passa Cinco e rio Corumbataí. Na área Central da bacia, o uso do solo é predominantemente de cana-de-açúcar.O aumento da produção previsto no plano é uma realidade. Por ser uma produção que protege o solo, Penatti afirma que o cultivo da cana está sendo introduzido na área degradada pelas pastagens. “Essa é uma das formas que estão ampliando o cultivo na região”.Com mais áreas plantadas e a possibilidade de aumento do uso da vinhaça, o que, segundo o engenheiro agrônomo, não traria riscos aos cursos d´água.Penatti esclareceu que as normas de uso da vinhaça são definidas e fiscalizadas pela Cetesb. “Por ser rapidamente absorvida pelo solo e pela planta, a chuva não consegue levar grande quantidade de vinhaça para os rios. Um estudo feito em uma usina, em área que era aplicada a vinhaça há 30 anos, indicou que a quantidade de vinhaça que atingiu o lençol freático não afetou a potabilidade da água. Outra questão é que para chegar ao lençol freático depende muito do tipo do solo e da quantidade aplicada do subproduto. Em excesso, pode infiltrar mais, mas para chegar ao lençol freático é mais difícil”.A chuva também não contribuiria para arrastar a vinhaça para os mananciais. “No nosso sistema de cultivo, onde a palha fica no solo, quando chove, a palha protege a terra e evita que os fertilizantes sejam levados, mas o próprio sistema do plantio, do terreno, inibe essa ação. somente uma chuva torrencial causaria esse transporte, mas ele seria mínimo”. Ele afirmou também que a acidez da vinhaça, em contato com o solo, é reduzida e não prejudica a terra ou os microorganismos.Correção do solo O pesquisador Rafael Botelho (foto) avaliou o pH (acidez) da vinhaça em seu estudo de pós-graduação no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena/USP), efetuado no Laboratório de Ecotoxicologia, entre 2011 e 2012. O interesse pelo produto surgiu do forte cheiro que sentia ao passar próximo a áreas cultivadas. “A vinhaça nutre o solo, porque tem entre os principais nutrientes o fósforo, potássio, cálcio, ferro, nitrogênio e também beneficia a planta”.Botelho avaliou a vinhaça que foi cedida a ele por uma usina da região. “Ela apresentou pH 4 e corrigimos a acidez, com hidróxido de sódio para o pH 6,5, que é próximo de neutro (7)”.Com a mudança e os experimentos com peixes e microcrustáceos - que têm uso autorizado para pesquisa -, Botelho concluiu que com a correção do pH, a vinhaça tem a toxicidade reduzida para os organismos aquáticos. “A concentração letal de 50% dos indivíduos, neste caso os peixes, (CL50) ocorreu com 97,38% de água e 2,62% de vinhaça com pH 4. Com a acidez corrigida para 6,5 a CL50 ocorreu com 91,66% de água e 8,34% de vinhaça. Para parte dos peixes morrerem foi necessário mais vinhaça”.Já para os microcrustáceos, a CL50 com pH 4 foi de 0,80% de vinhaça e com pH 6,5, a quantidade da vinhaça na água foi de 5,62%.Segundo o pesquisador, a vinhaça pode causar danos à água se despejada diretamente nos cursos d´água. “O primeiro aspecto a ser considerado pode ser a sua alta carga de matéria orgânica. Quando este resíduo se desloca para os ambientes aquáticos, os microorganismos da água degradam esta matéria orgânica e para que esse processo aconteça é necessário a utilização de oxigênio. No entanto, o oxigênio necessário para degradar a matéria orgânica será aquele presente na água. Sendo assim, haverá uma diminuição do oxigênio na água. As consequências são grandes como por exemplo, perda de espécies, diminuição da população. A coloração da vinhaça (marrom escura) pode provocar danos a espécies vegetais submersas porque pode reduzir a incidência de luz. Neste caso, o processo de fotossíntese pode ficar comprometido”, explicou.Botelho informou que para o ar, o principal fator é o mau cheiro e para o solo, a vinhaça possui mais benefícios.Ele avalia que seria necessário a realização de estudos para avaliar se a correção do pH da vinhaça pode interferir na produtividade da cana-de-açúcar.

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